<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841</id><updated>2011-12-10T12:25:20.291-08:00</updated><category term='Recado Cripta'/><category term='Horror'/><category term='Insólito'/><category term='Humor Negro'/><title type='text'>Cripta Arcana</title><subtitle type='html'>Contos de Fantasia, Horror e Ficção</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Cripta Arcana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06134054813070200540</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_x4FmljGxYhI/SESArhX92MI/AAAAAAAAABM/migMRZNLfQ0/S220/1774.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>13</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-5249856705553011512</id><published>2008-07-05T12:57:00.000-07:00</published><updated>2008-07-05T13:44:10.105-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>A Porta para o Nada - Parte Final</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SG_dBvo85SI/AAAAAAAAADY/R6Mh8s9ezPE/s1600-h/Porta.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5219633515183531298" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SG_dBvo85SI/AAAAAAAAADY/R6Mh8s9ezPE/s320/Porta.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Autor: Thiago Araujo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;"Parte Final do conto até o proximo sabado, talvez pq ta dificil de arrumar uma net..."&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos e ele insistiu para fazer o um chá, de acordo com ele sempre foi assim com meu avô, e não duvidei pois sabia onde encontrar tudo, acabei acatando seu pedido. Sentamo-nos na sala de estar de frente para a lareira, que estava apagada claro, afinal ainda era manhã. Comecei minhas interrogações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- meu avô era bem diferente, você por acaso sabe o que ele fazia aqui?&lt;br /&gt;- ah seu avô era uma pessoa muito curiosa, para tentar explicar tenho que contar tudo que sei sobre seu avô. – é como toda pessoa de idade Jamal também gostava de se alongar em suas histórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- conheci Armand a cerca de vinte anos atrás. Sabe este é um lugar místico sagrado, onde o povo da minha tribo agradecia aos espíritos do céu, terra, aguá, fogo e da floresta. Antigamente esse ritual acontecia a cada sete dias, mas com o progresso do homem a dissolução da tribo o costume foi se perdendo, passou a ser uma vez por mês, e logo uma vez por ano e foi numa desses rituais anuais que conheci Armand, ele era um explorador e veio conhecer a tribo, ficou espantado com tudo que acontecia durante a ritual, acho que, naquele dia ele pode ver mais do que todos na tribo o significado daquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- quando a tribo se desfez seu avô comprou o lugar e construiu essa casa. eu sou o único da minha tribo que ainda vem aqui uma vez por semana para que o costume não se perca, seu avô sempre deixou que eu fizesse meu ritual. Ele dizia que podia ver os espíritos e que planejava fazer contato com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- então meu avô achava que podia falar com espíritos?&lt;br /&gt;- Armand era uma pessoa muito espiritualizada, quem poderia dizer se era verdade ou não? Você esta aqui a quanto tempo? Também não viu algum espírito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quis responder a essa pergunta, na verdade não sabia como responde-la, e ele pareceu satisfeito com meu silencio, demonstrando um sorriso fino e furtivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- se me permite eu gostaria de fazer minhas preces.&lt;br /&gt;- Claro fique a vontade, não perca sua viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei o resto do dia vendo-o preparar uma fogueira para o ritual enquanto me contava historias de sua tribo. Era uma tribo muito antiga mesmo, dizia ele que eles eram o que sobrou do povo de machu pitchu antes de desaparecer sem explicação, dizia que seus guerreiros eram capazes de incorporar espíritos guerreiros que chamavam de totens, e que coagiam e trocavam favores e oferendas para obter ajuda de outros espíritos não guerreiros, para colheitas, chuvas e fertilidade de suas mulheres. Eu era um ótimo ouvinte e ele gostava de falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando terminou a fogueira ele começou o ritual, eu fique da varanda dos fundos apenas observando, enquanto tomava um café. Ele fazia uma dança rodeando a fogueira, isso já era um pouco tarde, ele não se apressou nem um pouco para a preparação e ainda parou para almoçar, por isso já estava anoitecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus passos era hipnotizantes e enquanto o fazia, parecia se formar uma leve neblina em volta e acima da fogueira, quando eu prendia meu olhar nessa névoa era como se visse imagens, rostos se formavam, rostos de sofrimento e um rosto me pareceu familiar dentre essas formas, paisagens desérticas e sombrias, e outras formas inconcebíveis ou que eu não conseguia interpretar. É claro que se fosse em outro lugar em outra circunstancia isso não me surpreenderia nem um pouco, seria como olhar aquelas manchas que os psicólogos tem, cada um vê o que quer, mas este lugar me causava arrepios e esse dia com Jamal e suas histórias não contribui muito para me acalmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que acabou perguntei a Jamal se ele gostaria de passar a noite aqui. Sua reação me impressionou, por ser uma pergunta simples. Vi em seu rosto um espanto e medo mudo, mas não em relação a minhas palavras, era mais como se o que eu disse o tivesse remetido a uma lembrança ruim, adormecida em algum canto de sua mente onde ele não queria mais chegar perto. Ele respirou fundo antes de responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- não jovem, essa terra não me pertence mais...&lt;br /&gt;- tem certeza? A noite eu escuto animais selvagens pela redondeza.&lt;br /&gt;- não se preocupe, eu estou de moto, e além disso eu sou um velho nativo, eu sei como me cuidar.&lt;br /&gt;Com isso dito subia a moto e o ronco do motor afirmava sua ida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ali na varanda por um tempo meditando, o que será que ele lembrou para ter aquela reação, e também tentava me lembrar o que fazia pela manha antes da chegada de Jamal. Mas um par de olhos brilhantes no mato adiante fez-me perer qualquer raciocínio, entrei rápido, tranquei a porta e fiquei observado pela janela, pela forma, pequena e pouco furtiva parecia mesmo um lobo, mas nessa escuridão a certeza era impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei a arma sobre a lareira, uma calibre 12, e olhei todos os cômodos para certificar-me de estar tudo trancado, pior do que acordar com aquele barulho infernal, seria acordar com um par de presas me rasgando a pele. Com tudo seguro, podia relaxar, mesmo ouvindo os uivos lá fora, fui preparar algo para comer e ir logo dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ora, para minha surpresa acordei apenas na manhã seguinte, tive um sono tranqüilo e sem sonhos. Por mais uma noite pude relaxar por completo nessa calmaria e paz. A única diferença foi que essas noites os animais pareciam estar mais próximos. Jasper também me ligou para saber como estava e se precisava de algo, e de imediato disse que tudo estava bem, para que não se preocupasse, que estava tendo dias tranqüilos, pescando, lendo e relaxando, ele pareceu satisfeito e disse que se precisasse de algo bastaria ligar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava ficando convencido que o barulho que ouvia era paranóia de minha parte, por ser a primeira vez a estar em um lugar sem nenhuma poluição sonora e sem nenhum ser humano por perto também.&lt;br /&gt;Mas nessa terceira noite acordei novamente com a batida na porta, um pouco mais fraca desta vez. Passei pelo corredor sombrio, e assim que me aproximei não havia mais barulho. Voltei para a cama e dormi. Passei o dia seguinte ocupado consertando um painel do gerador solar que havia se soltado e praticamente não pensei no barulho até a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As 03:00 da madrugada ouvi um estrondo imenso, fui de imediato ao corredor, apenas para ficar ainda mais apavorado, algo batia uma violência sobrenatural naquela porta, podia vê-la tremer a cada investida do que quer que fosse que lá estivesse, desci correndo, peguei a arma e subi, me aproximando da porta podia ouvir uma voz, não uma voz, um som gutural, parecido vir do fundo de uma caverna, pouco podia distinguir o que aquele som intimidador queria dizer, mas podia entender a ordem de “abra” no meio daquela balburdia, as batidas já estavam mais fracas, ao menos isso não era incansável, quando estava a cerca de meio metro da porta gritei “o que é que esta aí”, e imediatamente o barulho cessou, seguido por aquele silencio medonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci como uma bala e com o abajur que estava sobre a escrivaninha arrombei aquela gaveta trancada, procurando qualquer coisa que pelo menos me aliviasse da tensão que havia passado.. encontrei lá dentro um diário, que folheei rapidamente, pois estava escrito naquele mesmo idioma da porta, e uma caixinha, finamente trabalhada com entalhes também naquele idioma, onde encontrei uma chave dourada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei-a e subi até a porta. Eu devia estar louco nesse momento, mas com a arma em punho e mais do que preparado, enfiei a chave no buraco da fechadura, girei-a e pude ouvir o clique da tranca que há muito não se abria, chutei-a e empunhei a arma.&lt;br /&gt;Não vi nada, apenas a noite, um céu sem nuvens, podia enxergar qualquer constelação de onde estava se as conhecesse. Ainda estava tenso, mais abaixei a arma e examinei tudo com mais calma e atenção, e percebi lá embaixo, devia haver uns dez lobos, talvez a alcatéia inteira estivesse ali, sentados e me encarando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- animais desgraçados! – gritei e atirei na direção deles, tudo por conta do ódio que sentia no momento. Todos dispersaram rapidamente, mas pude ver que atingi um, havia um corpo ali que não se mexeu.&lt;br /&gt;Preparei um chá antes de voltar para o quarto, já estava menos tenso e consegui cair no sono rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei na manha seguinte com o sol já bem alto. Sai até o local onde matara o lobo e constatei com muita estranheza que não havia corpo ali, mas havia muito sangue, com certeza o animal deveria estar morto, não sou zoólogo e não me importava o que havia acontecido, a menor de minhas preocupações agora era um lobo morto, pois agora notara, eu havia deixado aquela porta aberta, não sei em que esse ato poderia resultar, mas agora sentia um medo apenas de entrar na casa, mesmo de dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei umas duas voltas na casa antes de reunir coragem suficiente para adentrar. Assim que o fiz corri ao quarto e peguei a arma, não iria mais me separar dela.&lt;br /&gt;Fui para o escritório, grato pela tecnologia que hoje temos, peguei aquele diário e comecei a pesquisar sobre aquele diário na internet. Perdi umas três horas até encontrar algo de relativa confiança, um tradutor, comecei a copiar a primeira pagina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizia algo sobre o inicio de uma pesquisa que Armand iniciara a muitos anos. Somente este parágrafo que ficou muito traduzido me chamou a atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“aprender xiak espíritos com ypalinay neo gamani espíritos dalak sunnin plano superior significa que eles malak akidar no alto astolton rarkaniome ali rui rugark portal dos mortos”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas essas palavras que me chamaram atenção “portal dos mortos”. Digitei mais alguns textos e tentei novamente, mas já não conseguia nada, estava sem o sinal de radio, meu celular também não funcionava mais. Um estresse começava a me assolar, já me sentia totalmente perdido, e para piorar já estava anoitecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consegui controlar-me um pouco tomando um calmante, mas mantive-me acordado até as 03:00 da madrugada, quando ouvi a batida.&lt;br /&gt;Dessa vez uma batida suave, nada daquela violência anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doug? Você esta ai?&lt;br /&gt;Paralisei, aquela era com certeza a voz do meu avo, levantei a arma.&lt;br /&gt;- É mentira! Não pode ser você!&lt;br /&gt;- Não temos tempo, me deixe entrar logo.&lt;br /&gt;Eu já havia decidido dar pelo menos um tiro nesta coisa que me enlouquecia, mas diante desta nova perspectiva fiquei sem ação. Por fim virei a chave na fechadura dei dois passos atrás e preparei-me para atirar.&lt;br /&gt;- esta aberta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta rangeu ao abrir-se, e o que eu vi ali era a figura calva e baixa de cabelos grisalhos de que me recordava, talvez um pouco mais velho, pois fazia alguns anos que não o via, ele ainda esperou alguns segundos, para confirmar que eu não ia disparar, depois entrou e fechou rapidamente a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- há muitas coisas ruins daquele lado.&lt;br /&gt;- meu deus Armand! O que significa isso? Você ressuscitou? – finalmente explodi depois de tanta anormalidade.&lt;br /&gt;- não Doug, isso é temporário. Mas venha, vamos descer vou lhe preparar um chá, tenho cerca de meia hora para lhe explicar alguma coisa. - Ele se adiantou para a cozinha eu ainda custei para fazer as pernas me obedecerem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar a cozinha a chaleira já estava no fogo e as xícaras separadas. Sentei-me, agora um pouco mais relaxado.&lt;br /&gt;- bom então me explique o que acontece aqui.&lt;br /&gt;- algo complicado de explicar em tão pouco tempo...&lt;br /&gt;- simplifique! – cortei-o.&lt;br /&gt;- veja bem Doug, eu sou um homem viajado e rico, pude presenciar praticamente tudo pelos quatro cantos do mundo – ele sentou-se de frente para mim – nos últimos anos presenciei uma tribo que conseguia realmente falar e abter ajuda de espíritos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- a tribo de Jamal!&lt;br /&gt;- vejo que o conheceu, esta certo a tribo de dele, os Inkatrat, descendentes das tribos maias. – apenas assenti com os olhos.&lt;br /&gt;- bom assim comecei minha pesquisa neste lado espiritual e desconhecido, estudei sobre egípcios, celtas, voodo, tudo que possa imaginar, mas no fim acabei voltando para este lugar que foi o inicio de tudo, e descobri aqui que tudo, espíritos, demônios, tudo vem daquele lugar. - ele apontou para cima, obviamente queria dizer o outro lado da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- e que lugar é este?&lt;br /&gt;- é como se fosse uma via, um lugar onde todos os mundos e tempos coincidem, eu o denomino “o encontro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chaleira apitou nesse momento, ele pausou sua narrativa para servir o chá. Eu não me importei com a pausa, aproveitei para meditar sobre essa idéia por um instante, com que tipo de coisa Armand havia se metido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele serviu o chá e sentou-se novamente, tomou um gole da xícara, também bebi, e a quentura me reanimou um pouco para continuar a escutá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- e por lá também é possível alcançar o mundo subseqüente a este, do qual eu vim. – continuou ele.&lt;br /&gt;- então existe um céu e inferno?&lt;br /&gt;- não saberia defini-los, provavelmente haja um caminho até esses lugares, mas o importante é que eu tenho estudado esse lugar, ainda não sei por que ou como isso vai ajudar a mim ou a outros, mas sei que minha pesquisa precisa ser continuada.&lt;br /&gt;- e o que eu... – comecei a sentir-me tonto, meus músculos, relaxaram perdendo as forças, as pálpebras fecharam-se e tudo ficou escuro.&lt;br /&gt;-doug?... – ainda pude ouvi-lo chamar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************************&lt;br /&gt;Recobrei a consciência em um lugar estranho, um deserto cinza, com um céu preto, sem nenhum ponto que pudesse chamar de estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei a cabeça e sentei-me com dificuldade, quando olhei para frente minha mente desanuviou-se, lá estava, no outro lado da porta no corredor, uma pessoa, mas não uma pessoa qualquer, era eu que estava ali, minha imagem, a uns dez metros de mim, na verdade ele estava dentro da casa e eu do outro lado do que pude supor ser a maldita porta, tentei levantar-me mas não consegui, segui então do jeito que pude, arrastando-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- sabe Doug! – a voz que escutava era a minha, mas o jeito de falar, com certeza era Aramnd – Quando eu disse que minha pesquisa precisava ser continuada, quis dizer que “eu” preciso continuá-la – já havia me arrastado uns cinco metros, mas ainda não conseguia emitir som algum – Claro q sem sua contribuição isso seria impossível, eu precisava de um veiculo para este mundo, e, principalmente alguém para me substituir aí, ou ele viriam atrás de mim. – estava a um metro da porta, quando ele ele aproximo-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adeus Doug, não o esquecerei farei o que puder a você.&lt;br /&gt;A porta rangeu fechando, ainda observei o batente em forma de gárgula uns segundos antes da porta desaparecer em pleno ar, sem deixar vestígio algum, deixando apenas a visão do deserto cinza. Tentei gritar, mas somente um grunhido saiu de mim, e este ainda foi suprimido por um som gutural, que eu so podia pensar ser “eles”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grande Sol laranja despontava no horizonte, e a despeito do hábito da natureza, uma grande quantidade de lobos enfileirava-se em frente a casa. O homem saiu e a cada passo se, como se para um rei, os lobos abaixavam a cabeça em reverencia. O homem levou o celular ao ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jasper, dez dias se passaram. Haja com a papelada, mas não venda esta propriedade, e traga-me mais suprimento, irei morar aqui por uns tempos...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-5249856705553011512?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/5249856705553011512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=5249856705553011512&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/5249856705553011512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/5249856705553011512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/07/aporta-para-o-nada-parte-final.html' title='A Porta para o Nada - Parte Final'/><author><name>Thiago Araujo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-t0WVDOhYdxM/TqxE921W2zI/AAAAAAAAAKo/6w5dHwNh4gs/s220/7227_101172806567850_100000253945882_29828_7776980_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SG_dBvo85SI/AAAAAAAAADY/R6Mh8s9ezPE/s72-c/Porta.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-6937829675321456159</id><published>2008-07-04T15:56:00.000-07:00</published><updated>2008-07-04T16:02:12.228-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Insólito'/><title type='text'>Tema o Deus da Podridão</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SG6rz4IEqLI/AAAAAAAAADA/j2kqaBozvME/s1600-h/sem+tÃ&amp;shy;tulo.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5219297925896906930" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SG6rz4IEqLI/AAAAAAAAADA/j2kqaBozvME/s320/sem+t%C3%ADtulo.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Pai, tem um carrinho de plástico no meio do lixo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sai de cima dessa sujeira, menina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo dia era a mesma história. Letícia, uma menina de cinco anos, adorava brincar no lixo, sabe Deus o motivo. Quando voltava da escolinha ia direto para o amontoado de entulhos e destroços para se divertir, e seu pai, que ia buscá-la a pé, todo santo dia precisava repreendê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma jovem senhora que também tinha uma filha peralta, vizinha deste pacato homem, recomendou-lhe o seguinte: “quando sua filha for para cima daquela sujeira, diga a ela que o Monstro do Lixo vive debaixo daquelas latas e sacos, que rapidinho ela vai parar de querer brincar ali”. Ao que parecia, a lenda do Monstro do Lixo era antiga e bem divulgada entre as crianças daquele bairro – porém, por ser novo na cidade, o jovem pai solteiro ainda não conhecia muita coisa, nem sabia onde ficava o indispensável bar de esquina daquele lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela encruzilhada onde ficava o lixão, morava um senhor ranzinza chamado Armando, que costumava ir dormir bem cedo, lá pelas cinco horas da tarde. Ele residia em uma casinha decrépita bem próxima àquelas dunas de detritos, mas parecia resistir bem ao odor de dejeção que dali despontava. O que ele não tolerava eram vozearias e badernas em frente sua casa – e, há muito, não conseguia dormir tranquilamente com os gritos de um pai que mandava sua filha sair da sujeira, bem em frente ao seu domicílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, voltando da escolinha, Letícia mergulhou nos sacos de lixo fedorentos antes que o pai pudesse lhe admoestar. Porém, o homem prendeu a respiração e lançou um brado bem forte, para a filha ao longe ouvi-lo: “Saia daí! O Monstro do Lixo vai pegar você, minha filha!”. A menina olhou para trás e para os lados, constatou que não havia nada ali além de mais sacos de lixo, e deu de ombros. Ignorou completamente as ameaças do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espreitando o jovem pai, aquele velho rabugento do Armando ficou ali, em cima do muro, mentalmente condenando a falta de educação do homem. Se tivesse um revólver sacaria ali mesmo, e explodiria os miolos daquele babaca escandaloso. E foi assim, imerso em pensamentos violentos, que Armando arquitetou um plano para acabar com aquilo. Finalmente, dormiria em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quatro e meia da tarde seguinte, uma sexta-feira, o velho morador do barraco próximo ao lixão escondeu-se atrás de uma imensa montanha de ciscos. O fedor era insuportável, mas felizmente seu olfato já não estava lá essas coisas. Escondido atrás de um barril apodrecido, Armando aguardou a maldita menininha atentada que, de uma vez por todas, aprenderia a temer o Deus da Podridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela apareceu quando o sol estava se pondo. E como já era de praxe, Letícia se jogou na sujeira enquanto o pai a censurava. Neste momento Armando saiu de seu esconderijo, furtivamente, e de súbito agarrou a menina pelos braços arrastando-a para dentro daquele pandemônio de imundície, sem expor a própria silhueta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horrorizado, o pai da menina gritou por socorro, e se projetou para o lixão desesperadamente, a fim de resgatar a filha. Algum maníaco estava tentando roubar a sua filhinha, e ele não deixaria isso barato. Sacou a pistola minúscula que carregava dentro do paletó, e avançou, usando o braço esquerdo e as pernas para remover todo aquele lixo entulhado de seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Próximo a uma grade que divisava o entulho e o campo de futebol, havia um velho estrangulando Letícia. Surpreso, Armando soltou a menina, levantou, e tentou fugir pulando os obstáculos, mas era tarde demais. Levou dois tiros na cabeça. O velho caiu flacidamente sobre um aglomerado de papelões, já morto, salpicando sangue para todos os lados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronto, filha. Está tudo bem – disse o jovem homem, abraçando Letícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse era o Monstro do Lixo, papai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, filha. Esse era só um velho maldoso. Mas ele nunca mais vai pegar criancinhas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ataque de Armando havia sido traumático, mas Letícia um dia esqueceria. Este tipo de coisa as crianças esquecem. Mas havia uma coisa de que ela jamais se esqueceria. Abraçada ao pai, apenas a menina de cinco anos de idade pôde ver, na rua que ficara deserta após os disparos, um vulto negro colossal se deslocar com rapidez por entre as colunas de lixo. O espectro demoníaco a fitou com olhos brancos como marfim, emitiu um ruído baixo de consternação, e desapareceu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-6937829675321456159?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/6937829675321456159/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=6937829675321456159&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/6937829675321456159'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/6937829675321456159'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/07/tema-o-deus-da-podrido.html' title='Tema o Deus da Podridão'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SG6rz4IEqLI/AAAAAAAAADA/j2kqaBozvME/s72-c/sem+t%C3%ADtulo.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-9062697783613264988</id><published>2008-06-28T14:40:00.000-07:00</published><updated>2008-06-29T07:36:56.088-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>A Porta Para o Nada</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SGed8-ORMhI/AAAAAAAAADA/F4aoD0JdxH4/s1600-h/porta-1[1].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5217312364152566290" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SGed8-ORMhI/AAAAAAAAADA/F4aoD0JdxH4/s320/porta-1%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Thiago Araujo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;"sem muito comentario jaque esta é apenas a primeira parte, espero que se animem em ler a segunda. &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;até sabado"&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;- Então é essa a casa que herdei de meu avô.&lt;br /&gt;A casa era realmente magnífica, uma mansão enorme, possui até um pequeno lago na parte posterior do lugar. Meu avô, Armand, era excêntrico, para não dizer maluco, mas era um gênio arquiteto e como projetou e construiu a casa não era de se admirar que existisse na construção um pouco, talvez muito de sua excentricidade, a começar pela localidade, afastada cerca de um pouco menos de duas horas de qualquer lugar habitado, até mesmo a estrada de terra foi feita por ele, e agora rodeando a casa posso ver a maior excentricidade que poderia imaginar, no elevado do segundo andar, havia uma porta para fora, uma porta de madeira, com batedor em forma de gárgula, não sabia o que pensar daquilo.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- a casa é essa mesmo, o terreno se estende até quase onde a vista alcança. Seu avô nunca disse como adquiriu o lugar, isso deve ter custado uma fortuna. – dizia Jasper, que era amigo de infância do vovô e seu consultor.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- por quanto você acha que posso vender o lugar, obviamente não vou querer viver aqui.&lt;br /&gt;- muito alto, somente pela extensão do lugar, mas se preocupe com isso apenas depois de cumprir a clausula de permanecia.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;É claro, como mais uma das loucuras de meu avô, ele pôs uma clausula de permanência antes de me desfazer da propriedade, deveria ficar aqui por pelo menos dez dias, por sorte não é algo impossível, como estou longe de qualquer lugar, basta que eu fique sem nenhum veiculo durante esse período que não poderei sair.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- você não terá problemas, a casa esta abastecida como foi mandado, e possui seu próprio gerador elétrico.&lt;br /&gt;- não estou preocupado, na verdade vai ser até bom ficar isolado por um tempo estava precisando mesmo de um descanso.&lt;br /&gt;- aqui estão todas as chaves de todos os aposentos da casa, exceto daquela porta do segundo andar, eu testei todas mas nenhuma funciona.&lt;br /&gt;- tudo bem, não pretendia usá-la mesmo.&lt;br /&gt;- certo então eu já vou indo para não pegar a estrada a noite, se precisar de algo me ligue pelo celular, já que aqui não tem linha&lt;br /&gt;- até mais.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Bom, não me importei com ele indo embora, agora iria entrar e conhecer a casa.&lt;br /&gt;O molho de chaves era espantoso, devia conter cerca de vinte chaves, pelo menos estavam nomeadas, e pude encontrar facilmente a chave da entrada.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O hall era gigantesco, podia-se ver o segundo andar daqui, o qual para acesso havia duas escadas laterais, também havia um grande candelabro de cristais bem no centro, parecia mais um salão de festas que um hall. Segui pelo corredor central que havia entre as escadas, no final claro havia uma porta para a parte posterior da casa, aqui sim a vista era aberta, podia-se ver o lago e um pequeno bosque que dava no pé de umas elevações que iam ficando maiores até chegar ao pé de uma cadeia de montanhas, diferente da vista da frente, que dava para um densa floresta.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Voltei olhando os outros cômodos, perto da saída estava o banheiro, seguindo havia uma sala de estar gigantesca, com uma lareira ao extremo, também havia uma porta de acesso deste lugar para o hall. No outro lado do corredor, uma sala de jantar ligada a cozinha e um acesso da cozinha para a lavanderia, a sala de jantar também tinha uma porta para o hall.&lt;br /&gt;Restava agora apenas o segundo andar, os quartos, seis no total pelo que Jasper me contou.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Logo de frente para as escadas havia um corredor de uns cinco metros que dava para aquela porta estranha, um corredor mal iluminado, havia quadros em branco pendurados pela parede até a porta, e como Jasper disse nenhuma das chaves funcionaram ali, deixei logo o lugar de lado, era até meio assustador, e fui ver os quartos. Pela esquerda estava a suíte principal, enorme, um banheiro com uma jacuzzi, e um escritório próprio, esse era o quarto que dormiria por esse mês. Desse lado ainda havia mais dois quartos simples, seguindo pela direito no final havia outro banheiro, e mais três quartos grandes, e virando o final do corredor havia uma porta com uma escada para o sótão, o qual não me dei o trabalho de olhar, já estava começando a escurecer, havíamos vindo tarde, desci para checar o gerador, que era abastecido a luz solar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Para finalizar esse dia preparei algo para comer e assisti televisão no quarto até dormir.&lt;br /&gt;Passei uma noite tranqüila, exceto durante a noite quando começou a ventar e fiquei ouvindo uma batida em algum lugar, mas estava com muito sono e não me incomodei, voltando a dormir quase que instantaneamente.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Passei o dia seguinte inteiro pescando no lago, que apesar de pequeno tinha uma variedade grande de peixes, fiz uma pescaria com um resultado excelente, peguei uma carpa enorme, duas tilápias, e um tucunaré, além de um bluegill que devolvi ao lago. preparei a carpa e uma tilápia para jantar.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Fui dormir tarde novamente, assistindo televisão. Acordei pela metade da noite, cerca de 2:00 da madrugada com a batida, desta vez tive que me levantar para localizar de onde vinha esse barulho para consertar pela manhã, afinal ia ficar um mês ali e não ia querer essa batida toda a noite.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Fui seguindo atrás do som, e com certeza ele vinha daquela porta, aquele corredor fica muito escuro a noite, mesmo com essa iluminação precária, talvez até colocasse uma iluminação melhor aqui, no escuro, pensei até ter visto algo se mexendo nestes quadros. Encostei o ouvido na porta, era aquela gárgula, aquele batedor estava balançando com o vento e fazendo esse barulho.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Pela manhã preparei a escada e subi até a porta, que, de frente assustaria algumas pessoas, a gárgula tinha expressão aterrorizante, como se querendo que ninguém viesse por ali, e pela porta toda havia talhadas inscrições em algum idioma desconhecido para mim, alguma escrita indígena, olhar para aquilo e imaginar o que estava escrito me causava até arrepios. Passei uma fita isolante naquele batedor e desci logo.&lt;br /&gt;Passei mais um dia no ócio total nada fiz o dia inteiro, apenas cochilei e assisti a TV, por esse motivo esses dias estava dormindo tarde.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A noite, novamente pelo mesmo horário, aquela batida começou de novo, que tormento, pela manhã ia pregar aquele batedor ou então tirá-lo dali.&lt;br /&gt;Não dormi bem essa noite, tive um pesadelo estranho, com rituais em volta de uma fogueira e aparições com rostos demoníacos que arrancavam a alma das pessoas em volta da fogueira, das quais não conseguia enxergar os semblantes.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Acordei bem tarde e fui pregar aquele batedor, a fita isolante havia soltado com a umidade da noite.&lt;br /&gt;Passei o dia caminhando por uma trilha que encontrei, levava até o monte atrás do lago, estranhei esse dia, por onde caminhei não vi nenhum animal, não escutei um pio de um pássaro, nem mesmos os peixes estavam visíveis hoje como ontem. Fui dormir com um certo pesar, poderia ter chamado alguém para essa estadia, ou mesmo um pesar por ainda não estar casado aos 28 anos.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Acordei no meio da noite novamente, o relógio marcava 1:50 e aquela batida novamente, dessa vez não acreditei, havia pregado aquilo, não poderia ter soltado. Levantei e fui até a porta, senti um certo arrepio atravessando o corredor sentia-me sendo observado, por imagens invisíveis naqueles quadros em branco.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Recostei o ouvido na porta para escutar o som, mas desta vez percebi com certo horror o que acontecia, o local da batida não vinha exatamente do meio da porta, onde estava o batedor, e sim mais do alto, afastei-me de súbito assustado, a batida parou. Procurei um lugar para olhar, mas a fechadura era de um modelo mais novo e não dava para olhar e a parte de baixo da porta era extremamente rente ao chão, nem uma carta de baralho devia passar por ali, mas a batida cessou com o barulho que fiz tentando ver o lado de fora.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Encostei de novo, escutei um sussurro, apenas por alguns segundos, que cessou para vir novamente aquele silêncio mórbido. Voltei para a cama e custei a dormir novamente, pensando em ligar para Jasper pela manhã, mas pensando bem o que ele poderia fazer, ele apenas pensaria que já estava enlouquecendo e pediria para que voltasse, e eu só estava aqui a quatro dias.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Acordei neste quinto dia apreensivo, peguei a escada para olhar a porta e confirmei para meu desespero o que já sabia, o batedor ainda se encontrava pregado, desci desnorteado sem saber o que fazer em seguida, acabei por tentar encontrar algo em todos os papéis desta casa dos infernos. Procurei pelo escritório do andar inferior, vasculhei gavetas e armários, não encontrei nada além de plantas da casa, contas velhas dos custos da obra e outros papéis de planejamento, entre outras coisas cotidianas e triviais, faltou apenas olhar uma gaveta trancada da bancada principal, estava subindo para buscar o molho de chaves no quarto, quando escutei um barulho de motor do lado de fora.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sai para ver se era Jasper, mas o que vi foi um senhor muito enrugado de cabelo negro e liso, de pele bronzeada, o que me indicou um parentesco indígena, usava uma jaqueta de couro, daquelas de gangue de motoqueiros e um óculos grande de lentes escuras. Ele parou tirou os óculos e me observou, parecia mais espantado que eu ao ver uma pessoa diferente ali, por fim perguntou.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Armand está? – tinha um pequeno sotaque, se tinha parentesco indígena, isso foi a muito tempo.&lt;br /&gt;- Armand morreu a quinze dias.&lt;br /&gt;- oh, bem – ficou bem desconcertado.&lt;br /&gt;- você conhecia meu avô?&lt;br /&gt;- então você é neto dele, sim o conhecia, a uns três anos desde que ele se mudou para este lugar.&lt;br /&gt;- entre você pode me contar alguma coisa sobre meu avô e este lugar.&lt;br /&gt;- claro, meu nome é Jamal. - eu sou o Douglas.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-9062697783613264988?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/9062697783613264988/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=9062697783613264988&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/9062697783613264988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/9062697783613264988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/porta-para-o-nada.html' title='A Porta Para o Nada'/><author><name>Thiago Araujo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-t0WVDOhYdxM/TqxE921W2zI/AAAAAAAAAKo/6w5dHwNh4gs/s220/7227_101172806567850_100000253945882_29828_7776980_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SGed8-ORMhI/AAAAAAAAADA/F4aoD0JdxH4/s72-c/porta-1%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-2155777615854029898</id><published>2008-06-27T14:33:00.000-07:00</published><updated>2008-06-27T14:37:41.808-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>O Majestoso Piano de Cauda</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SGVdW9bNWII/AAAAAAAAACw/zUf8aG9cfMQ/s1600-h/2%5B2%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5216678392405776514" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="221" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SGVdW9bNWII/AAAAAAAAACw/zUf8aG9cfMQ/s320/2%5B2%5D.jpg" width="316" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Augusto era um adolescente com problemas mentais. Era autista, do nível mais grave, daqueles que vivem em seu próprio mundo. Hoje em dia me pergunto se não era preferível compartilhar desta dádiva, induzir em mim mesmo esse tipo de moléstia mental, para que não mais me lembrasse do efêmero dia em que estive na mansão onde Augusto, diariamente, arrancava estranhas notas de seu piano de cauda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao passar pelo imenso portão do casarão eu já estranhei. Uma armação colossal de ferro que ostentava, meeiro, cordas de aço penduradas em lanças pontiagudas com alcatruzes dourados representando símbolos de proteção. Imediatamente, arquitetei um plano para ganhar algum dinheiro com aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei do meu celular para uns homens que costumavam rondar meu bairro furtando jóias e carros dos moradores. Eu os conhecia desde criança, e confesso que algumas vezes até cheguei a participar de alguns crimes que a gangue cometia. Naquele momento, em frente à portentosa mansão, imaginei que aqueles adornos dourados pendurados com desleixo na entrada do jardim não fariam nenhuma falta àquela família. Sendo assim, combinei com os criminosos para que eles chegassem à noite e levassem as jóias, enquanto eu tiraria a atenção de quem pudesse destruir nosso plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era o encanador mais famoso do bairro. Quando soube que o magnata Dário Mendonça me convocou para consertar o encanamento de uma cozinha de sua casa, aceitei o trabalho de imediato. Mas ao entrar na luxuosa residência, o que me impressionou não foram as riquezas, móveis importados e quadros valiosos do gigantesco salão central – e sim, um pianista de olhar vago que reproduzia canções fabulosas em seu piano brilhante, recém envernizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É uma bela canção – disse eu, sem saber ainda que o menino sofria de determinado retardamento mental – é Mozart, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz, ainda digitando com habilidade as teclas do instrumento, fitou-me friamente, com olhos injetados, e disse: - É uma música desprezível. Mas se o destino quiser, tocarei ainda hoje a mais perfeita melodia, composta pelas mais belas criaturas abismais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como disse? – confuso perguntei, mas antes que Augusto pudesse responder-me, o homem que parecia ser o pai do moço apareceu, e por algum motivo, desconhecido pra mim, tentou tirar-me dali rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se não tivesse entendido a situação, falei com o dono da casa, Dário: - O seu filho é um excelente pianista. Ele deve ter um professor de grande renome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele já nasceu aprendendo a fazer isso – disse Dário, secamente – Agora vou lhe mostrar o seu serviço. E peço, por obséquio, que o senhor não fale mais com meu filho. Nunca mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei estranha a atitude de Dário, mas como sempre fui um sujeito simples imaginei que aquele chilique era mais uma excentricidade que os milionários de berço cismam em colecionar. Além do mais, com este tipo de aversão direcionada a mim, meu bom senso desapareceu completamente, e eu fiquei convencido de que roubar aquelas jóias penduras do portão da casa era a melhor atitude a se fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarefa era laboriosa, e por isso acabei ficando lá na mansão até à noite. Não que eu seja um bombeiro hidráulico incompetente – ao contrário, terminei o serviço antes do crepúsculo, mas para executar o pequeno furto o qual planejei precisaria ficar lá mais algumas horas, até acionar meus comparsas por telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi isso que fiz, ali pelas nove horas da noite. Os bandidos disseram que iam chegar em meia-hora, e cumpriram com o prometido. Naquela fria noite de agosto os homens vieram, vestidos de preto, analisaram de longe o valor que as peças metálicas dando sopa no portão deveriam custar, e surrupiaram os brasões de ouro sem nenhum tipo de empecilho ou contratempo. Da janela, observei a ação, e achei aquilo tudo tão fácil que logo senti que devia haver alguma coisa errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, alguma coisa estava fora dos eixos. A noite, antes fria mas de céu aberto, foi coberta de forma quase sobrenatural por uma estranha névoa negra, assim que os assaltantes entraram em um automóvel preto e sumiram no horizonte da estrada. Da sala de estar vinham notas musicais esmeras, de tão horrendo agouro, que cominou em mim pensamentos mais mortificantes do que se eu ouvisse a marcha fúnebre dentro de minha mente. Atrás de mim, na escuridão do extenso corredor que dava para os outros cômodos da casa, senti uma presença alocar-se com ódio. Aquela coisa queria me atacar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volvi com um cano de PVC nas mãos, encarando o espectro que me espreitava. Era Dário, com um semblante arrasado, densas olheiras enegrecidas e cabelos despenteados. “O que você fez...” disse o homem, enquanto se dirigia lentamente ao faqueiro de madeira sobre a pia da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor Dário, não faça isso. Eu tenho um cano pesado aqui em minhas mãos. Não se aproxime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, o homem não se aproximou. Empunhou a mais afiada faca do conjunto, e abriu uma punção no próprio pescoço, exaurindo grandes quantidades de sangue antes de tombar entorpecido no chão ladrilhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava fugir, imediatamente. Joguei o cano no chão e adentrei o corredor submerso em mortalha de escuridão, com as mãos para frente para não dar de cara com a parede. A melodia demoníaca ainda passeava escarnecida por cada cômodo do imenso domicílio. Por algum motivo – sexto sentido ou qualquer outro efeito que prefiro não cogitar – percebi, antes mesmo de entrar na sala de estar, que me depararia com a maior atrocidade nunca antes vista por mim. Um pesadelo que jamais me deixaria descansar em paz estava lá, e eu me lembraria daquilo até após minha morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era Augusto que tocava o piano agora, mas o próprio diabo. Branco e sem pêlos no rosto, a divindade virou a cabeça, contorcendo o pescoço de forma incomum, e fitou-me com gigantescos olhos roxos e úmidos, antes de sorrir exibindo uma arcada dentária composta apenas por presas caninas. Do interior do majestoso instrumento, saíam aziagos vultos embaçados, que rodopiavam pelo teto emitindo ruídos similares a orações de algum idioma ímpio de tribos ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso, de nenhuma maneira, mensurar o horror que contemplei naquele momento. Por motivos desconhecidos por mim, eu e meus amigos rompemos o lacre que mantinha a santa paz naquele recinto ao furtar aquelas estranhas peças de grande valor penduradas no portão. Por nossa culpa, um mal transcendente foi desperto e, por esse motivo, não consigo dormir com tranqüilidade há mais de cinqüenta noites seguidas. Neste momento estou deitado em meu leito, esquelético e desnutrido, esperando que meu falecimento seja menos tormentoso que as soturnas almas que contemplei naquele fatídico dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi dizer que o físico Albert Einstein, certa vez, fez uma anotação de tal complexidade em seu caderno de notas, que concluiu que a humanidade não estava pronta para receber aquele tipo de revelação. Eu, sem querer me comparar ao grande cientista, faço minhas as palavras dele, ao dizer que os seres humanos não estão preparados para compreender os eventos ocorridos nos próximos minutos em que, inerte, observei grandes revelações feitas pelos espíritos que evadiram do interior do piano de Augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recomendo ao leitor que se aventurou em decodificar essas poucas linhas que tome todo tipo de atitude de precaução ao ir se deitar esta noite. Faça orações e pendure um crucifixo sobre sua cama. Talvez você não consiga dormir – ou pior – talvez o demônio de pele lisa que apareceu para mim brote em seus sonhos com as mesmas revelações nefandas que me foram abonadas naquela noite invernal de agosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, se além disso, você ouvir as notas nauseabundas da mais complexa canção composta pelas forças das trevas, entregue sua alma para Deus, e implore pela salvação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-2155777615854029898?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/2155777615854029898/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=2155777615854029898&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/2155777615854029898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/2155777615854029898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/o-majestoso-piano-de-cauda.html' title='O Majestoso Piano de Cauda'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SGVdW9bNWII/AAAAAAAAACw/zUf8aG9cfMQ/s72-c/2%5B2%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-3239331897847786615</id><published>2008-06-21T15:02:00.000-07:00</published><updated>2008-06-22T03:55:29.574-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>A Taverna</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SF4vihnUGhI/AAAAAAAAACg/BDOx_jwpZ70/s1600-h/Taverna.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5214657688726936082" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SF4vihnUGhI/AAAAAAAAACg/BDOx_jwpZ70/s320/Taverna.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Autor: Thiago Araujo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;"bom esse foi o primeiro conto que escrevi ainda enquanto estudava, uma época em que eu tinha muitas idéias, mas nunca concluia nenhuma, esse foi o unico que terminei, vou posta-lo para comparar o quanto melhorei daquela epoca para hoje.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Até o próximo sábado..."&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta é uma história que não deveria ser contada, podem tomar uma pessoa por louco, mas em algum momento, manter isso para si se torna um peso por demais para ser agüentado por uma pessoa normal. Escrever é uma saída, não tão confortável ainda, mas é o que posso fazer por hora.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu comigo, enquanto andava pelas ruas do meu bairro, não é um lugar extremamente grande, mas um desacostumado poderia se perder facilmente por suas ruas parecidas, e eu nunca fui uma pessoa bairrista. Nesse dia eu já havia saído de um bar, mas não havia ainda bebido o suficiente e estava atrás de outro local para tal. Fui andando, dobrando esquinas e passando por vielas, e logo estava em um local desconhecido, não devia ter passado muito das onze, e nesse local todas as casas já estavam fechadas e com luzes apagadas. havia passado por uma praça bem cuidada e que continha um coreto, as casas eram de muros baixos e arquitetura antiga, realmente eu parecia estar em outra época.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Andava observando, quando encontrei a taverna, parecia antiqüíssima, o tipo de legado passado de pai para filho, a placa de madeira talhada em baixo relevo tinha o nome “PUB LILITH” , havia apenas uma pequena porta de madeira entreaberta, não resisti e entrei no lugar, normalmente eu iria preferir um lugar mais agitado, mas dada a atmosfera local fui atraído.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entrei pela porta, que ao ser empurrada anunciou minha entrada com um alto rangido, havia sete pessoas no pub, três em uma mesa redonda de madeira no canto esquerdo, outras duas, em outra mesa ao lado direito, e uma sentada no banco ao balcão, todas olharam para mim, mas voltaram logo ao que faziam, exceto a pessoa do balcão, que me olhava mais minuciosamente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sentei em um banco ao balcão, a uma certa distancia da pessoa que ainda me observava. Via a placa que dizia o que tinha para beber, quando ele sentou-se ao meu lado.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- sirva uma bebida a ele, por minha conta.&lt;br /&gt;- obrigado...&lt;br /&gt;- Você não é daqui certo? Como você faz isso? fica com a pele corada desse jeito. Esse seu disfarce é perfeito.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não entendi nada do que ele dizia, mas estranhei sua aparência, com o que ele me disse, e agora que o observava bem, pude reparar em como ele era pálido, não só ele mas todas as pessoas que aqui se encontravam.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele ia falar algo novamente, quando um novo rangido o cortou para dizer que outra pessoa havia chegado na taverna, era uma mulher de cabelos castanhos, parecia apenas perdida. Ela chegou ao balcão, do lado dessa pessoa que falava comigo e sentou-se.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora sim reparei no balconista, que era bem forte. quando a mulher sentou-se ele saiu de trás do balcão, foi até a entrada e olhou lá fora. Voltou, e de súbito agarrou a mulher pelo pescoço, que começou a se debater e gritar, mas a força do balconista era extremamente anormal, visto que ele nem piscava com os golpes da mulher, ninguém se importou, na verdade para eles era a coisa certa que devia acontecer. O balconista a arrastou para uma porta atrás do balcão. Saiu de lá alguns minutos depois, e sem falar nada os outros dois que estavam na mesa ao lado direito entraram.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;pode-se imaginar a reação de uma pessoa normal ao ver algo assim acontecer, mas eu tive de manter a calma, tentar não parecer surpreso diante de tal cena.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- o próximo que entrar é nosso. – foi o que o meu “amigo” ao lado disse. Logo em seguida o balconista me serviu a bebida, uma caneca grande de um líquido vermelho. Não precisei pensar muito para ver que aquilo no copo era sangue.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora estava apavorado, em que tipo de culto maligno eu havia entrado? Certamente eles me confundiram com algum membro deles pois senão provavelmente aconteceria comigo o mesmo que aconteceu com a mulher. Meus pensamentos foram interrompidos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- sabe se não soubéssemos reconhecer um aos outros eu não acreditaria que você é um de nós. Mas agora com você aqui do meu lado, bebendo e aguardando a vez...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Beber, eu ia ter de beber aquilo se quisesse manter meu disfarce. Sangue e eu meu intimo sabia que aquilo era sangue humano.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- como você gosta de fazer? Se for um homem deixe que eu o subjugue, eu gosto de ver a impotência da vítima diante de nosso poder, antes de matá-lo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Apesar de já ter idéia do que havia acontecido com a mulher, ainda assim estremeci quando ele disse isso, afinal poderia ter sido eu a estar lá, precisava descobrir logo um meio de sair daquele lugar antes que outra pessoa entrasse ali.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- é melhor beber logo antes que fique ruim.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É, teria de fazer aquilo, e aproveitar essa pequena deixa para tentar sair daqui. Reuni toda a coragem que ainda me restava, peguei a caneca e dei um gole, bebi bastante, para não deixar dúvida a meu observador. Fiz o Maximo para ignorar o líquido espesso de gosto metálico que engolia. Desci a caneca com uma pequena batida.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- na verdade preciso ir, obrigado pela bebida. – respondi prontamente, mas com uma repulsa reprimida do que havia feito.&lt;br /&gt;- espere aí, você ainda nem me disse seu nome.&lt;br /&gt;- nem você o seu.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora ele ficou desconcertado, olhando para os lados de relance, como procurando uma resposta.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- ta bem, sem nomes então, mas você ainda não me ensinou como fazer o disfarce.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já estava me sentindo estranho, uma náusea me sabia pelo esôfago, sentia vontade de por aquilo que bebi para fora.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- olha eu preciso mesmo ir embora.&lt;br /&gt;- vai negar um segredo para um da ordem?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;dessa vez ele disse em um tom mais alto, e todos que estavam ali, inclusive o barman, pararam por um instante e viraram os olhos para nós. Neste instante eu fique congelado, literalmente, não conseguia me mover estava gelado talvez até pálido se pudesse me ver, tinha estragado meu disfarce e isso me custaria a vida.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele ainda me olhava, agora novamente com segundas intenções, como logo no início.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- tudo bem, você esta com pressa, mas isso não deve demorar.&lt;br /&gt;- OK. – foi tudo o que pude dizer enquanto sentava-me, usando o que me restava dos meus nervos e forças.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Precisava pensar o que fazer agora, tinha que sair logo dali, e a náusea subia cada vez mais.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- por que não me diz se você tem alguma técnica para isso e eu te ajudo.&lt;br /&gt;- tudo bem. Eu quando me disfarço, faço o sangue correr nos lugares visíveis, apenas mão e rosto, o resto fica coberto.&lt;br /&gt;- faça o sangue ir para o coração, e bombeio de lá.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou um tanto inquisidor, virou o rosto para a mesa, poucos segundos, mas extremamente longos para mim.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- como se estivesse vivo. – disse sem nem me olhar, essa frase me abriu um novo leque de suposições de onde estava, e o que eles eram – mas isso iria requerer litros de sangue.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eu já não sabia o que poderia dizer, por sorte ele prosseguiu, agora me olhando.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- eu entendo, por isso você não desfez o disfarce quando entrou, seria muito difícil refazê-lo. Irei praticar essa técnica, obrigado mesmo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele realmente parecia satisfeito e eu tinha minha chance de ir embora.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- até mais. Levantei-me para sair – e para meu horror, a porta rangeu pela terceira vez, agora entrava um homem.&lt;br /&gt;- tem certeza que vai embora? – a voz do meu “amigo” soou lá de trás, com um tom diferente. Me senti agora numa armadilha, mas a náusea me subia com uma velocidade extraordinária, precisava sair daquele lugar, mesmo que me arriscando, e além disso se permanecesse aqui com certeza não me seguraria por mais tempo.&lt;br /&gt;- eu já estou atrasado para meu compromisso.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sai sem olhar para ninguém, e logo ao sair o balconista ainda apareceu ao lado de fora, olhou para os lados e voltou, ainda pude escutar o grito da luta do homem que havia entrado. Andei apressado, quase correndo e ao virar a primeira esquina, pus para fora o que bebi...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Isso foi a dois dias, tentei voltar ao lugar no dia seguinte mas não consegui encontrar o caminho, nada me pareceu familiar, não encontrei a praça, nem as casas de arquitetura clássica.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Duas pessoas estavam morta e eu não pude fazer nada, por isso faço esse relato para que não me culpem e implorar para entendam pelo que passei aquela noite, e compreendam por que não fiz nada.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-3239331897847786615?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/3239331897847786615/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=3239331897847786615&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/3239331897847786615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/3239331897847786615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/taverna.html' title='A Taverna'/><author><name>Thiago Araujo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-t0WVDOhYdxM/TqxE921W2zI/AAAAAAAAAKo/6w5dHwNh4gs/s220/7227_101172806567850_100000253945882_29828_7776980_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_x4FmljGxYhI/SF4vihnUGhI/AAAAAAAAACg/BDOx_jwpZ70/s72-c/Taverna.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-8541039549387599009</id><published>2008-06-19T13:49:00.000-07:00</published><updated>2008-06-19T13:59:12.579-07:00</updated><title type='text'>Novo Colaborador</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Aceitando o convite com muita honra, estou aqui me apresentando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;strong&gt;Thiago Araujo&lt;/strong&gt;, escritor em tempo livre e integral, começarei a partir de hoje minha colaboração aqui.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;mas não exatamente hoje... farei minhas postagens sempre aos sábados.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;então aos frequentadores até sábado...&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-8541039549387599009?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/8541039549387599009/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=8541039549387599009&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/8541039549387599009'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/8541039549387599009'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/novo-colaborador.html' title='Novo Colaborador'/><author><name>Thiago Araujo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-t0WVDOhYdxM/TqxE921W2zI/AAAAAAAAAKo/6w5dHwNh4gs/s220/7227_101172806567850_100000253945882_29828_7776980_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-5258823608695185759</id><published>2008-06-19T12:00:00.000-07:00</published><updated>2008-06-19T12:10:06.795-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>A Arte da Morte</title><content type='html'>&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5213671330412225666" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SFquc6jb5II/AAAAAAAAACQ/M7UN40IZTh0/s320/200610_132_sp10%5B1%5D.JPG" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel recebeu o peculiar telegrama às dez horas de uma manhã fria de inverno. Estava fumando um charuto cubano e degustando um copo de uísque Red Label. Sua velha vitrola arranhava a duras penas um LP clássico da banda Judas Priest. Da janela escancarada de sua residência em estilo colonial, uma brisa fria invernal tornava o dia mais europeu do que nunca no alto do morro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava escrito na correspondência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hoje será apresentada a maior exposição de quadros do artista inglês Frederic Streets, jamais contemplada antes em qualquer pinacoteca do planeta. Streets ainda brindará seus fãs com sua presença, em uma sensacional noite de autógrafos. O evento acontecerá às vinte horas no bairro de Boa Viagem, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Contamos com sua presença”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deve ser algum tipo de chiste – disse Samuel, consigo mesmo – Eu detesto os quadros do Streets.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frederic Streets ficara conhecido em todo o mundo como o “Artista da Morte”. Todos os seus quadros exibiam pinturas aziagas representando diferentes tipos de morte, com requintes de crueldade. Em meados dos anos 1990, Streets exibiu um quadro no Museu do Louvre, na França, onde exibia um quadro à base de óleo de linhaça representando os corpos carbonizados das vítimas do Holocausto. O resultado foi a destruição da obra, a pedido da comunidade judaica mundial, e o indiciamento de seu criador. Streets ficou preso durante sete anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto da virada do século Streets apresentou um quadro estranho à sociedade artística. Era feito a carvão, e mostrava um apocalipse infiel onde Satanás sairia como o grande vitorioso nos últimos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas seu quadro mais aterrorizante e execrável era uma obra intitulada “Minha Maravilhosa Marionete”, feito simplesmente com tinta guache e lápis aquarelável, mas de um realismo tão impressionante que diversos espectadores passaram mal com aquela visão. Era um boneco de engonço, porém seus braços e suas pernas não eram feitos de plástico ou de madeira. Eram membros humanos mutilados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que era apenas um quadro. Uma idéia doentia gerada por uma mente demente. Fugia completamente das idéias revolucionárias com base no impressionismo que Samuel costumava reproduzir em seu ateliê. E foi com estas idéias que ele se tornou um homem rico e respeitado por aquele meio.&lt;br /&gt;Às oito e meia daquela noite Samuel recebeu uma ligação. Ficou surpreso ao constatar que era Frederic Streets do outro lado da linha. Felizmente falava um pouco de inglês, devido às viagens que fez ao redor do mundo, e pôde estabelecer uma conversação básica: - Senhor Streets, é uma honra falar com o senhor – disse Samuel, mantendo a diplomacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já vi alguns de seus quadros, senhor Samuel. Por respeitá-lo como artista, pedi para enviarem um convite para que fosse a minha exposição. Não posso acreditar que o senhor me fez uma desfeita como essa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, senhor Streets. Não foi isso. Não estou me sentindo muito bem hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não aceitarei isso como desculpa – inquiriu o pintor estrangeiro – quero que venha aqui imediatamente. Além do mais, estou expondo hoje minha obra prima, e exijo que um pintor do seu calibre a veja antes que eu volte para a Inglaterra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel acabou acatando a solicitação do excêntrico artista. Colocou uma jaqueta de couro para se proteger do frio, pegou algum dinheiro do cofre – talvez houvesse algum quadro exposto que valeria a pena ter em casa – e saiu depressa em direção ao ponto de ônibus. Até Niterói ia demorar uma hora, mais ou menos, então era bom que realmente valesse a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era o único passageiro da condução, pelo menos até chegar a alguns pontos antes de entrar na ponte Rio - Niterói. Pois neste momento uma lindíssima mulher ruiva subiu no carro, cumprimentando educadamente o motorista, enquanto pagava a passagem. A primeira reação de Samuel foi olhar para aquelas pernas maravilhosas, meio escondidas em um belo vestido vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher se sentou em um banco do lado direito do ônibus, quase ao lado de Samuel. Olhou para ele, provocante, enquanto ele retribuía com um sorriso confuso. “Ela deve estar me reconhecendo” pensou, “afinal eu sou um cara famoso”. E como a moça não tirava os olhos dele, o artista optou por estabelecer logo uma comunicação, antes que fosse tarde demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa noite – disse Samuel, mas a voz por pouco não saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa noite – respondeu a mulher, com uma voz tão suave que soava a um cântico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela tem voz de veludo, como imaginei” pensou Samuel. Achou que nada mais seria dito depois deste primeiro entendimento, mas foi a mulher que deu seguimento à conversa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está indo para a exposição de Frederic Streets?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim – animou-se o homem – você também está indo para lá? Gosta de pintura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adoro. Hoje à noite você vai morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como disse?&lt;br /&gt;- Disse o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você disse que eu vou morrer? – Samuel fitou-a, atônito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu nunca disse isso, moço – respondeu a mulher, levantando-se e indo para a parte de trás do ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel achou que já estava ficando com sono. Aquela mulher realmente não devia ter dito o que ele “achou que ouviu”. O artista coçou os olhos, apoiou a cabeça na parte de trás do banco, e cochilou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus estacionou na rua do ponto final, e ao longe Samuel fitou um grupo enorme de pessoas que saíam despreocupadas daquele museu em forma de disco voador projetado por Niemeyer. Para sua surpresa, a mulher sob vestido vermelho que falara com ele já havia saído pela porta de trás da condução, e se dirigia apressadamente para o local onde a exposição de Streets acabara de acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa mulher tá aprontando alguma”, pensou Samuel, enquanto corria atabalhoado pela passarela que precedia a entrada do museu. Furtivo, seguia os passos da mulher, ainda que acreditasse que a mesma sabia da presença dele naquele local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O portão principal de entrada estava aberto. Entrou no museu, imerso em trevas. Na penumbra, pôde ver a mulher sumir ao atravessar depressa o primeiro pavimento de acesso. Em seguida, andando devagar para não tropeçar em nenhuma peça, Samuel percebeu que naquele largo espaço vazio do salão principal perder-se-ia facilmente. Girou nos calcanhares e preparou-se para voltar pela porta de entrada, mas algo novo obstruiu seu caminho. Era Frederic Streets.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então você veio – disse o inglês. Samuel não conseguia distinguir a expressão facial dele sob toda aquela escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. Mas pelo visto cheguei atrasado – respondeu Samuel – Fica para a próxima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, senhor Samuel. Você admirará minha coleção ainda hoje. Temo que minha vida esteja se extinguindo, e talvez eu não tenha outra oportunidade de te mostrar minha famosa pinacoteca – o homem caminhou até uma coluna de pedra no meio do salão, e com a ajuda de um fósforo acendeu um lampião – o pessoal desligou a luz do museu. Teremos que fazer nossa jornada da maneira mais clássica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais forte que a covardia era a curiosidade. E fazer uma tour com um dos maiores artistas contemporâneos pela maior coleção de obras temáticas da atualidade era uma honra – e um ótimo tópico para se colocar em um currículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminharam devagar pelos corredores do pavimento superior. Era onde estavam as obras de Streets. Samuel notou que a crueldade nas mortes e nos assassínios representados pelas pinturas eram “evolutivas” – o primeiro quadro mostrava a representação de um aborto, quadros subseqüentes exibiam mortes de civis em guerras urbanas, e os últimos quadros mostravam extermínios atrozes por esquartejamento, tortura e outros tipos de barbárie que ele não poderia ao menos mensurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tem problema – disse o visitante, fitando uma obra onde uma menina tinha a cabeça decapitada por um lenhador escocês – quem opta por representar a morte em seus desenhos, senão um maluco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Streets riu – A morte é o sentido da vida, Samuel. É a libertação. Você por acaso já viu a felicidade? Eu respondo por você: não! Isto porque o objetivo de se viver é subjugar-se ao sofrimento. Você vive cada dia de sua vida com medo; medo da violência, medo do clima, medo de terremotos. Medo, medo, medo. E a única maneira de se libertar deste maldito medo que consome o pobre coração humano é encontrar a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom, isso é o que você acredita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só pára um tempinho pra pensar. A morte é a libertação de uma vida de tédio e languidez. Tive de pintar mais de cem quadros para perceber isso. E quanto mais cruel e sanguinolenta for sua morte, mais valiosa é a expiação. Então Deus lhe presenteará com o benefício da vida eterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel fitou Streets, confuso. Agora, com a ajuda da luz espectral do lampião, pôde identificar a face do velho. Tinha olhos amendoados e cabelos brancos. Sorria discretamente para o jovem artista, como se suas revelações fossem tão maravilhosas que a única reação por parte do ouvinte seria o espanto, ou algo parecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Samuel não se submeteu: - Acho que você é muito criativo, mas nada além disso. Eu não viveria sob um dogma que me estabelece que esta vida serve apenas para sofrermos até o dia de nossas mortes. Mas devo admitir que o senhor tem uma imaginação e tanto na hora de compor estas obras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, Samuel – respondeu Streets, atropelando a última frase do homem a sua frente – não foi imaginação. Todas estas cenas, todos estes desenhos... eu vi! Para reproduzir tudo isso eu tive de ver o horror da morte com meus próprios olhos. E ainda te confesso: para obter muitas dessas cenas, eu mesmo tive que mexer os pauzinhos. Eu pessoalmente matei muitas dessas pessoas que aparecem em meus quadros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira reação de Samuel foi fitar o velho, com os olhos arregalados. Depois de medi-lo, exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jesus Cristo! – Samuel levou as mãos à cabeça – Diz que isso é uma brincadeira. Você é só um velho senil, não é isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você acha mesmo? Acompanhe-me, por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho inglês caminhou penosamente pelo caminho escuro, acompanhado de seu ambíguo visitante. “Se esse filho da puta tentar qualquer coisa ele vai saber o que é sofrimento de verdade”, pensava Samuel, enquanto seguia Streets. Os dois atravessaram quase que completamente o largo corredor, até chegar em uma parede branca com uma porta no centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Prepare-se – disse Streets – agora você vai contemplar a mais impressionante obra, jamais reproduzida por mulher ou homem que já tenha pisado neste planeta. Mas antes, pegue para mim o quadro de número 9, no lado direito do corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel caminhou para trás devagar, pois a medida que se afastava perdia a iluminação do lampião ainda nas mãos de Frederic Streets. Chegou até o quadro 9 – “Os Membros no Closet” – e o retirou cuidadosamente do suporte de tapume. O desenho representava um guarda-roupa de parede, com a porta semi-aberta. Dentro do mesmo havia membros mutilados de corpos de dezenas de pessoas, alocados com perfeição dentro do cubículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora veja – disse Streets, abrindo o closet. No fundo, Samuel já sabia o que estava para presenciar. Mesmo assim, custou a acreditar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel vomitou, em cima do quadro. Genuflexo, fitou com pavor o que havia dentro do closet: corpos mutilados de homens, mulheres e crianças. Havia até uma cabeça de cachorro em meio aquele pandemônio. Em seguida olhou para Streets. Já não parecia ser mais o mesmo. Seus olhos vidrados davam a impressão de que o velho pintor bretão estava sendo possuído por alguma entidade sádica, e que estava se divertindo a valer com tudo aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel desmaiou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem artista acordou amarrado a uma cadeira, com um pano amordaçando sua boca. Apenas um lampião iluminava o extenso corredor, pendurado em um suporte de parede. Logo a sua frente estava aquela mulher que ele vira no ônibus há algumas horas – mas dessa vez ela estava nua, amarrada por cordas finas de cânhamo, e sua boca não tinha nenhum tipo de obstrução. Ao contrário: aqueles lábios vermelhos estavam exibindo um sorriso puro, quase afortunado. E ao seu lado, de pé, estava Frederic Streets, com uma serra enferrujada em uma mão, os cabelos sedosos da moça na outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu te chamei aqui por um propósito nobre, Samuel – disse Streets, acariciando os cabelos ruivos da jovem ao seu lado que parecia hipnotizada – eu queria que o maior artista do Brasil presenciasse minha última grande obra. Ela vai se chamar “A Nudez de uma Mulher Esquartejada”. Tenho certeza que você vai adorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menos de dois metros de distância de Streets, havia uma tela em branco sobre um cavalete de madeira. Em cima de um pequeno suporte havia uma paleta e potes de vidro com tintas de diversas cores. Exceto a cor vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel gritava desesperadamente, mas o que saía da sua boca eram singelos grunhidos de agonia. Tentava afrouxar a corda que o prendia, mas não conseguia nada além de pequenas escoriações no próprio corpo. Derrocado assistiu ao início da matança de Streets – uma bestialidade tão horrenda e inédita que não pôde desviar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Streets encostou a serra no pescoço da mulher. Arrastou os dentes pardacentos da arma, deslizando-a até chegar ao ombro. Então pôs o pé direito sobre o colo da vítima, para obter apoio, e devagar começou a serrar o braço da mesma, lambuzando-se com a grande quantidade de sangue expelida. Samuel não resistiu àquela visão, e começou a se engasgar com o próprio vômito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebendo a perplexidade doentia de Samuel, Streets caminhou até ele. O homem se debateu em pânico. Todavia Streets apenas retirou a mordaça da boca de seu agoniado espectador, e jogou o braço decepado da mulher nua sobre seu colo. – Pode segurar isso para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, não faz isso! – bradou Samuel, chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque não, seu tolo? – Streets foi para trás da mulher mutilada, e segurou sua cabeça – veja, ela está rindo. Ela está gostando. Ela entendeu que o sofrimento é a única via para a salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Silêncio! Não posso trabalhar com essa gritaria, seu vândalo. Se continuar gritando vou ter que adicionar mais elementos a minha obra. Mais elementos seus! E eu não tenho muito tempo para reproduzir uma cena tão complexa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homicida continuou seu serviço. Com precisão cirúrgica arrancou o outro braço da mulher, e as duas pernas. À medida que extraía os membros da jovem mulher, ia despejando o sangue que conseguia em uma bacia decrépita ao lado do cavalete, e jogando os pedaços mutilados sobre o colo de Samuel. Em seguida, secando o suor da testa, virou-se para o único homem em sua platéia mórbida, e sorriu – Sabe o que ia ficar lindo aqui? Intestinos pulando para fora deste lindo abdome torneado. Com isso eu ainda consigo mais tinta vermelha. Nossa, como vou precisar de tinta vermelha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel fechou os olhos para não ter que encarar aquela cena tão desumana, mas a curiosidade foi mais forte. Com um olho aberto assistiu o homem fatiar a carne da barriga da mulher, que há algum tempo já desfalecera, e puxar cautelosamente as tripas da mesma para fora, arrumando-as com capricho de modo a ficarem impecavelmente simétricas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que a droga que eu dei pra ela não foi tão forte quanto me disseram – explicou Streets, enquanto andava devagar até a tela branca que preparara – não era pra ela desmaiar tão rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela morreu, seu retardado – disse Samuel, já sem forças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é bem abusado pra um sujeito que está preso. Eu gosto disso! Eu era igualzinho a você quando tinha a sua idade. E quando assisti pela primeira vez uma Arte da Morte sendo composta, reagi da mesma maneira que você está reagindo. Mas logo você vai gostar, eu prometo.&lt;br /&gt;Streets começou a reproduzir o quadro. Grande parte era desenhada e preenchida com sangue, mas o artista também usou tinta preta, branca e algumas cores híbridas. Sua velocidade para dar volume ao desenho era espantosa, quase sobrenatural. E igualmente notável era sua concentração, fitando com atenção ao fantástico trabalho de desenho que ia configurando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel sentiu que seu sangue devia estar esfriando. Desmaiou mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertou ainda sentado naquela cadeira. Porém, não haviam cordas amarradas ou panos amordaçados. Estava livre. A pobre mulher trucidada pela covardia de um maníaco não estava mais lá, naquela cadeira posicionada bem a sua frente. Quem estava lá, sorrindo, era Frederic Streets, com sua imunda serra ensangüentada na mão. Logo atrás dele, o quadro que acabara de produzir jazia em um suporte de parede antes vazio. Era hediondo – mas também era arrebatador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostou do que eu fiz, Samuel? Agora é a sua vez. – o homem esticou os braços, entregando a arma para o jovem pintor que, maravilhado, contemplava a obra recém concebida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É fantástico – disse Samuel, segurando a serra com prudência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora é com você. Faça um quadro meu. A pintura mais bela que você já fez em toda a sua vida. Eu já coloquei uma tela novinha no cavalete pra você. Fatie-me e faça-me sentir uma dor jamais suportada por qualquer ser humano. Eu sei que você consegue, Samuel. Por isso escolhi você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel se aproximou do velho. Se o homem queria aquilo, era aquilo que iria obter. Se aquele homem era o artista contemporâneo mais respeitado da Grã-Bretanha, então aquela arte devia mesmo ter algum valor transcendente. Controlado por uma loucura mais forte do que qualquer sanidade humana, Samuel começou a cortar a goela de Streets, que gritava alucinadamente a cada resvalar dos dentes daquela arma corroída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da decapitação, Samuel deixou a cabeça de Streets sobre o colo de seu dono. Com a ajuda do lampião, encontrou uma escada de alumínio que estava no último andar do edifício e a levou até a seção de quadros do grande pintor inglês. Abriu a escada sob o lustre branco do teto, e, carregando a cabeça de Streets embaixo do braço, subiu os degraus com dificuldade. Em seguida, usando os fios de cabelo da cabeça de sua vítima, amarrou-a pendurada na imensa luminária ornamental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceu rapidamente, e começou a reproduzir a cena. Usou o sangue do balde como tinta vermelha, e com as outras cores foi pintando os detalhes daquele palco macabro. Não mais nutria ódio daquele velho, e não mais menosprezava o grande trabalho que o mesmo vinha fazendo em prol do esclarecimento da raça humana. Enquanto ia desbravando cada linha, cada sombra, cada ângulo do ponto de fuga de seu desenho, Samuel ia percebendo a missão sagrada que, involuntariamente, havia recebido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma nova era que surgia. Como uma nova Belle Epoquè que despontava em uma manhã de beleza incomensurável, jamais vista desde os anos renascentistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou chamá-la de A Luz da Minha Vida”, pensou Samuel, ao terminar a obra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-5258823608695185759?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/5258823608695185759/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=5258823608695185759&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/5258823608695185759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/5258823608695185759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/arte-da-morte.html' title='A Arte da Morte'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SFquc6jb5II/AAAAAAAAACQ/M7UN40IZTh0/s72-c/200610_132_sp10%5B1%5D.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-3468252911068657422</id><published>2008-06-16T11:09:00.001-07:00</published><updated>2008-06-16T11:15:35.647-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>"Permaneçam Dentro de Suas Covas!"</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SFath0vPSPI/AAAAAAAAACA/SfBrevUOO24/s1600-h/graveyard[1].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5212544415331993842" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SFath0vPSPI/AAAAAAAAACA/SfBrevUOO24/s320/graveyard%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O que aconteceu com o estranho João Carlos foi uma tragédia sem tamanho. Ser espancado até a morte deve ser, de longe, a pior de todas as formas de fazer a inevitável passagem. Mas entendo que cada coisa que acontece em nossas vidas faz parte de um plano de merecimento, e, sob este paradigma consolador, atribuo a morte do meu amigo Juca a uma dívida cármica obrigatória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém na pacata cidade de São Venâncio gosta de falar sobre este caso. Eu também não sou muito fã de dar corda a este tipo de história pois, quando chega a noite, dormir se torna um processo de superação dos mais profundos de meus medos. E a verdade é que, por mais corajoso que alguém seja, deve admitir que existem brenhas obscuras neste mundo que não devem ser cutucadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou com o suicídio de um coveiro chamado Jacó. Ele trabalhava há menos de dois anos no Cemitério Maria Lourdes, e, apesar do medo infundado que as pessoas costumam ter de coveiros, Jacó era querido pela população do minúsculo município. Mas, tristemente, o bondoso Jacó acabou se deparando com uma verdade tão aterradora e intolerável, que acabou dando cabo da própria existência. Digo isto porque sei o que ele viu. Eu vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por alguns dias o povo de São Venâncio manteve um luto respeitável pelo sacrifício de Jacó. Eu, que era um menino na época, dei muito trabalho para minha mãe, perguntando todo dia sobre princípios e causas da morte, os quais a pobre e ignorante senhora de meia-idade não poderia jamais responder. Quando eu quis saber o destino das almas suicidas então, minha mãe decidiu que era hora de me mandar para a igreja. Lá eu iria aprender melhor sobre os segredos de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Independente do rumo que minha vida tomou a partir daquele ano, a serenidade prolongada que reinava na pequena cidade foi levemente abalada com a chegada de um novo coveiro. Seu nome era Vicente, e ele em nada se parecia com o afável Jacó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Vicente era um velho mestiço, quase indígena, e andava sob trapos velhos que muniam a ele o aspecto de nada mais que um mendigo errante. Estava sempre fumando um cachimbo longo de madeira, e não sorria nem que lhe contassem a melhor anedota do mundo. Outra característica do ancião era seu amor pelo álcool. Vicente, em poucos meses, ficou conhecido como o maior cachaceiro de São Venâncio. E olha que a cidade tinha pinguços aos montes naquela época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso ele tinha a fama de ser um tanto tresloucado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou mentir. A verdade é que eu odiava Seu Vicente, e quase todo o povo dali também nutria esse sentimento, apesar das tentativas de disfarçar. Minha mãe também não gostava do velho, mas quando eu tentava compartilhar esse sentimento com ela, sabiamente ela me repreendia, dizendo que eu devia acima de tudo respeitar os mais velhos. “Eu devia tê-la ouvido”, penso eu todas as noites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus três melhores amigos também tinham medo dele. A turma chegou a criar um apelido para o novo coveiro: “Mato Velho”, mas até hoje eu não entendo o porquê desta alcunha. Nenhum de nós tinha coragem de passar perto do Mato Velho, e também não ficávamos no mesmo lugar onde ele estivesse. E juro que não sei se hoje em dia eu, homem feito, agiria diferente se visse o estranho Vicente vagando pelas ruas com seu cajado. A não ser que eu não tivesse escolha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, ele tinha um cajado. Meus amigos e eu costumávamos nos sentar na varanda da minha casa duplex para conversar sobre isso. Criávamos várias hipóteses sobre a função real do pedaço tosco de madeira que o Mato Velho carregava consigo, e a noite, não conseguíamos dormir por culpa de nossos próprios devaneios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos quatro. Juca e Vanessa tinham dez anos, Clarinha tinha onze, e eu tinha doze anos. Apesar de ser o mais velho, eu era o mais medroso de todos quando o assunto mexia com mitos sobrenaturais. Quando a noite estava gélida e as sombras das árvores dançavam na parede do meu quarto, eu ia correndo para baixo do edredom dos meus pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um dia 13 de Agosto de algum ano que não poderei mensurar, minha mãe levou a mim e minha turma no aniversário de um colega da escola. Fomos a pé mesmo, pois quase todas as casas e lojas de São Venâncio eram tão próximas uma das outras que era até inútil ter um automóvel na garagem. Voltamos tarde, quase meia-noite, mas andar pelas ruas vazias do município não era motivo de temor, já que casos de roubo ou latrocínio na região eram raríssimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca esquecerei aquela noite. Acredito que todas as pessoas presenciam eventos inexplicáveis em suas vidas, principalmente na infância, mas duvido que alguém tenha submetido sua sanidade a uma experiência tão mortificante como a que me assaltou. Ao passarmos em frente ao largo portão do Cemitério Maria Lourdes, ouvimos uma frase que, a princípio, não pudemos acreditar. Como se estivéssemos todos conectados por nosso inconsciente, paramos e fitamos a mortalha que cobria o horizonte da necrópole por entre as grades do portão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá estava Seu Vicente. De costas para nós, apontava seu cajado em direção à lua, perfeitamente alta e magnífica na abóbada celeste. Árvores gris e secas balançavam com a mesma intensidade que nuvens negras deslizavam irrefletidas no plano tangente da esplanada que parecia culminar no mais profundo dos limbos. Pensei ter visto o mármore negro que lacrava um dos esquifes se arrastar lentamente ao lado do necromante maldito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Permaneçam dentro de suas covas!” disse o velho, e todos pudemos ouvi-lo claramente. Tive que me controlar para não gritar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meses depois desse evento, eu ainda guardava o terror em minha memória. A voz sepulcral do velho mago negro, ecoando por entre os féretros execrandos daquele cemitério pardacento, ainda passeavam buliçosos em minha mente de criança – e não posso dizer que as coisas mudaram hoje em dia.&lt;br /&gt;- Ele é só um velho maluco – disse Clarinha para mim, dois anos depois. Porém mesmo ela sentia um inexplicável temor quando o inverno chegava, e quando a lua despontava alta no céu nos dias 13 de Agosto. Ainda mais quando outras pessoas da cidade afirmavam também ter ouvido àquela mesma frase, que me impossibilitava de tirar um cochilo que fosse sem ser ferido por um calafrio nefando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse homem devia sair da nossa vizinhança – disse eu naquele inverno. Talvez tenha nascido desta frase a mácula do destino de muitas pessoas daquela província.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque os meus amigos pareciam ter levado minha frase a sério. Estávamos adentrando lentamente no conturbado período da puberdade, e, por isso, acabamos tendo idéias pouco ortodoxas de como expulsar o Mato Velho de uma vez por todas da nossa pacata cidade. Por sermos crianças, acreditamos que podíamos salvar a vila de uma sombra maligna, agindo como se fôssemos os Goonies, ou algo do tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos pegar aquelas roupas da festa à fantasia do ano passado – disse Juca, o primeiro a dar a idéia – eu vou me vestir de Frankenstein, Clarinha vai ser a mulher de branco, Vanessa vai ser o zumbi e você vai se vestir de vampiro – apontou para mim. Eu não estava muito satisfeito com a brincadeira. Como eu já havia dito, eu sempre fui um menino quieto, não gostava muito de me aventurar em terreno arriscado. Além do mais, eu estava começando a criar grilhões com os dogmas da igreja, e pra mim aquilo soava como uma brincadeira de muito mau gosto, que jamais faria Mato Velho deixar nossa cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia 13 de Agosto – dia que eu gostaria muito de apagar dos calendários de todo o mundo – colocamos nossas fantasias e saímos de fininho da minha casa, em direção ao peculiar cemitério Maria Lourdes. Era quase meia-noite. O frio e a solidão arrebataram-nos de tal maneira que, isolados naquela estrada escura e erma, tivemos a impressão que éramos as únicas pessoas vivas em um mundo negro e colossal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curioso é o fato de que nós não tínhamos nenhum plano de invasão ao cemitério. E ainda mais peculiar foi o fato do imenso portão de ferro do lugar estar aberto, como se aguardasse a nossa chegada. É claro que eu não gostei nem um pouco disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos voltar – disse eu, nervoso – ele já sabe que a gente tá aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pára de ser covarde – inquiriu Juca a mim – você é o mais velho de nós! O que as meninas aqui vão pensar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos logo, garoto – insistiu Vanessa – eu sabia que você ia afrouxar na hora H.&lt;br /&gt;- Gente, se ele não quer ir, ele é que sabe... – disse Clarinha, fitando-me com ternura – ele não gosta desse tipo de coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu empaquei mesmo, e ninguém ia me fazer passar por aqueles portões. Quando meus amigos perceberam que minha atitude não mudaria, entraram irritados na ravina enegrecida por uma noite sem estrelas. A lua estava obstruída pelas nuvens, e o horizonte havia sido tomado, subitamente, por uma estranha bruma que parecia expelida pelo pequeno bosque que ficava nos limites do cemitério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pouco que vi pelas frestas do portão de ferro foi suficiente para me fazer procurar um psicanalista no futuro. Nos dias de hoje preciso tomar drogas controladas para pegar no sono sem acordar minutos depois assolado pelos mais aflitivos pesadelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças queriam espantar o Mato Velho. Juca ainda chegou a planejar uma frase para dizer depois que o estranho coveiro começasse com seus gritos: “não vamos permanecer em nossas covas. Vamos escoltá-lo para o quinto dos infernos!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus! Quem é o maluco que tem coragem de entrar de madrugada em um cemitério e fazer uma barbaridade dessas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aconteceu. E não de uma maneira engraçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longe, vi o velho se aproximar do cerne do campo de ataúdes, com cajado em punho, de olhar taciturno e vidrado. Meus amigos estavam escondidos atrás de um mausoléu branco, mas eu, aterrorizado com aquela visão espectral, nada pude fazer senão observá-lo pasmado pelo lado de fora do terreno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mato Velho ergueu seu cajado. O mundo parecia ter perdido a importância para ele, pois ele não olhava para lugar nenhum senão o céu estéril. Ao apontar o bordão de madeira para o firmamento, as nuvens que cobriam a lua foram arrastadas violentamente para longe, em direção ao norte, revelando um globo brilhante e desmedido denso em uma coloração parda surreal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, veio a citação. Atingiu-me como um projétil nascido das profundezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Permaneçam dentro de suas covas!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, silêncio absoluto. Nada mais pude ouvir, exceto uma coruja piando em algum lugar longe dali. O velho jazia em pé, com seu cajado apontado para o alto, imóvel como uma escultura. Nenhum sinal dos meus amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então veio o coice, que me fez despertar do mundo onírico que me aprisionava timidamente. Vanessa, Juca e Clarinha surgiram de seus esconderijos, berrando frases embaralhadas; gritos tão ensurdecedores e bruscos que o velho Vicente caiu para trás, alarmado. Rolou pela pequena colina gramada, e se espatifou próximo ao portão, perto de mim. Meu coração batia tão forte que pensei que fosse desmaiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que aconteceu? – berrou Juca para mim, lá no alto do platô – o velho desmaiou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu acho que ele morreu, Juca. Deus me perdoe! – então eu me afastei do portão pelo lado de fora, uns seis passos, e completei – Saiam daí logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tarde. O portão se fechou sozinho com uma lufada de vento que vinha do sul. Tentei forçar a abertura, mas era pesado demais pra mim. Mas como que tomado por uma verdade imutável senti que uma desgraça se avizinhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então veio o fedor tórrido de podridão. E junto com ele, sons medonhos de clamores do além-mundo retiniram vertiginosamente para cada lado daquele campo funesto. Do umbral da entrada do mausoléu de mármore branco, um urro anômalo fez a terra tremer, destruindo lápides e fendendo esquifes de pedra polida. Uma escuridão mais negra que a própria morte desceu sobre a planície, despertando em mim um mudo pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tive coragem de olhar para dentro do cemitério de novo, pude ver a corrida desesperada de meus amigos em busca de proteção contra um mal que apenas eles haviam presenciado até então. Carnes putrefatas sob roupas decompostas deixavam seus tálamos eternos para singrar pelo extenso pátio contaminado há décadas por um horror ancestral. Não sei que sortilégio trouxe estas almas corrompidas para os corpos que a elas um dia pertenceu – talvez algum feitiço hediondo que Eritone tenha ensinado às bruxas em uma época de escuridão – mas atesto que aquilo foi real, tão real quanto o mundo incoerente que temos como cenário no tempo presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o pináculo de uma penedia, ao lado de um obelisco negro que posicionava-se escarninho contra a luz da lua, vi Vanessa ser mastigada violentamente por uma daquelas carcaças ambulantes. Aconteceu tão lentamente que eu pude ouvir cada choque daqueles dentes podres contra a carne da menina, que gritava em decorrência da atroz expiação. Estou certo que ela lutou com todas as suas forças para de desvencilhar daquela verminose humanóide, mas as garras imundas da besta perfuravam seu abdome e tórax profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado, próximo ao muro carcomido, Clarinha havia sido encurralada por três ou quatro daquelas criaturas que excretavam grande quantidade de pus por seus tumores purulentos. Desprovidos de qualquer sentimento humano, os cadáveres atacaram minha melhor amiga sem piedade, dilacerando cada parte do corpo imaculado da garota, manejados por um apetite remoto e brutal. Alguns deles lançavam os pequenos ossos dela para longe, degustando exclusivamente da carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As visões de um fim infernal e apocalíptico me levaram a uma mudança brusca de sentimentos. Eu havia perdido Vanessa e Clarinha, e, talvez por um impulso insólito de minha parte, eu não podia permitir que o mesmo acontecesse a Juca. O menino corria pra lá e pra cá, com alguma desenvoltura, mas seria capturado em breve. Sabe Deus de onde eu tirei coragem para fazer o que eu fiz em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Usei toda a força que pude para empurrar o portão de ferro, e, limítrofe, entrei por uma pequena lacuna, que foi o máximo que consegui. Fui até o corpo do coveiro Vicente, esparramado no chão, e tirei o cajado de sua mão direita, com alguma dificuldade. O velho parecia não querer se livrar do item, mesmo depois de sua morte. Corri até o centro da necrópole o mais rápido que pude, antes que os zumbis notassem minha presença. Apontei o cajado para a lua infiel que brilhava no céu, escarnecendo os seres humanos, e pronunciei aquelas palavras que tanto me causaram asco, poucos anos atrás: “Permaneçam dentro de suas covas!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cadáveres estancaram. Aos poucos, evacuaram a terra garrida e se dirigiram lentamente para suas respectivas tumbas, emitindo ruídos graves de indignação. A escuridão que tomara o lugar foi se dissipando, e as luzes dos postes na estrada puderam ser novamente contempladas. A estranha cerração vinda do bosque foi se movimentando e se alocando novamente pelas árvores secas em direção ao sul. Aos poucos, a macabra turba oriunda de algum círculo do Tártaro foi se abrandando silenciosamente, e se posicionando novamente a sete palmos de terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde estão as meninas? – perguntou o entorpecido Juca – pra onde elas fugiram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Elas morreram – disse eu, firme, ainda com o cajado apontado para a lua – morreram por sua culpa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos fugir daqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! Temos que ficar aqui, até o dia amanhecer! – ordenei, fazendo questão de fitar o garoto com o mais profundo ódio que pudesse emitir – Esses monstros vão se levantar de novo, caso não façamos isso. E se eles chegarem à cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não quero ficar aqui – disse Juca, choroso, preparando-se para correr – eu quero ir pra casa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se você sair eu abaixo o cajado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos lá, até o amanhecer. Nossos pais, desesperados, nos procuraram no dia seguinte. Estávamos bem na calçada em frente ao cemitério, dormindo profundamente, e encolhidos no muro branco sob o casaco esfarrapado do velho Vicente. Quando a polícia quis saber sobre o ocorrido – a morte do Mato Velho e o estranho desaparecimento de Vanessa e Clarinha – dissemos nada mais que a verdade, e fomos vítimas de todo o tipo de escarnecimento. Eles jamais acreditariam em uma história tão absurda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu depois disso se apresenta pra mim quase como um delírio. Não consigo me lembrar de muita coisa daquela época, mas admito que não pude dormir desde então. Perdi veementemente o contato com Juca que, e como vim a saber alguns anos depois, tornou-se o coveiro da cidade. E contam os boatos que meu velho amigo João Carlos rendeu-se à loucura, cumprindo fielmente o ritual de evocar a citação de Mato Velho no cemitério Maria Lourdes, a cada dia 13 de Agosto dos anos que se seguiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso até ontem. Neste ínterim, Juca está sendo enterrado no mesmo lugar onde presenciou o horror que o levou à demência. Foi severamente espancado por golpes de porrete no dia anterior, e eu acabei sendo indiciado como o principal suspeito do homicídio. Mas mesmo enclausurado nesta claustrofóbica cela da cadeia de São Venâncio, sinto que agi corretamente apagando este homem desequilibrado de sua existência neste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta maneira, desejo com toda a força do meu coração, que as almas Vanessa e Clarinha descansem em paz. Quanto ao espírito do velho Vicente, tenho certeza que se sente desforrado neste momento, ainda que almeje conservar-se aqui ao meu lado, para toda a eternidade.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-3468252911068657422?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/3468252911068657422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=3468252911068657422&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/3468252911068657422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/3468252911068657422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/permaneam-dentro-de-suas-covas.html' title='&quot;Permaneçam Dentro de Suas Covas!&quot;'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SFath0vPSPI/AAAAAAAAACA/SfBrevUOO24/s72-c/graveyard%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-96087911431785377</id><published>2008-06-05T12:49:00.001-07:00</published><updated>2008-06-05T12:50:59.988-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>A Balada</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEhDeMIroLI/AAAAAAAAABM/HDdaQZbDyRU/s1600-h/Balada.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5208487154986754226" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEhDeMIroLI/AAAAAAAAABM/HDdaQZbDyRU/s320/Balada.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Em algum momento de nossas vidas, inevitavelmente, ouvimos o som brando da Balada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela nasceu na idade em que o mundo era puro, repleto de ignorância e dogmas virginais, e foi se transformando em um som agridoce, numa mixórdia de inocência e rebeldia, atingindo os corações dos jovens nascidos em um século assaz esclarecedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que algo estranho aconteceu no mais afastado ponto da praia de Itacuruçá, lá pelas bandas de Itaguaí, mais ou menos nos anos 1970. Um grupo de moços e moças que curtiam a semana do carnaval se hospedou em uma pensão singela, abandonada, que pertencia ao falecido avô de Luís, e que já não funcionava há muitos anos. Lá não havia mais linha telefônica, nem antena para aparelho televisor, e o sistema de encanamento não estava lá essas coisas. Os acessos à vila onde ficava o palanque para o coreto noturno e à pequena praça, onde funcionava grande parte do comércio da cidade, estavam limitados a uma simples estrada esburacada onde raramente passava um automóvel sequer. A gigantesca locomotiva, que puxava uns cinqüenta vagões cheios de pedras e areia, passava a cada dez horas, transformando os extensos momentos de silêncio em uma balbúrdia suportável. Aquele pedaço insólito de litoral era provavelmente o lugar mais deserto de toda a costa brasileira. Exceto por alguns poucos pescadores que apareciam no cais, antes do meio-dia, mas logo iam embora apressados, sem nenhuma explicação crível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que a garotada não tenha tentado entender esse episódio já no primeiro dia de sua estadia na pensão. Luís e Amanda, um casal que começara a se relacionar alguns dias antes da viagem, caminharam até a velha plataforma de madeira a beira-mar a fim de conversar com os pescadores. Estes não se abriram muito, mas disseram que precisavam estar longe dali, todos os dias, antes do primeiro sinal de anoitecer. Quando o casal quis saber o verdadeiro motivo deste ritual, apenas um dos pescadores, sob o olhar discriminatório do outros colegas, respondeu: ao anoitecer começa a Balada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao anoitecer começa a Balada”. Esta frase não saiu da cabeça de Luís. E foi com preocupação que ele olhou, embevecido, a lua se alçar no céu estrelado enquanto seus melhores amigos – amigos de longa data – formavam um círculo em volta de uma adorável fogueira, e cantavam belas músicas que falavam de paz, amor e liberdade. A brisa afável que vinha do mar, trazendo um odor suave de água salgada, fazia cada membro do grupo pensar com nostalgia em sua própria infância. E com uma sutileza indescritível, um estranho som volitava secretamente por correntes de ar, penetrando as audições mais aguçadas presentes naquele lugar ermo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos ficaram atordoados e confusos quando entraram correndo na única pensão que havia em frente à praia, sob as ordens de Luís, o herdeiro do imóvel. O rapaz saiu de casa berrando, indicando que alguma força estranha agia nas imediações, causando um tumulto incompreensível que perdurou por toda a noite. “Sinto que algo ruim está a ponto de acontecer a qualquer momento”, dizia o jovem proprietário aos amigos. Os rapazes, conhecidos de Luís, acreditaram que ele estivesse doente, talvez sob efeito de um delírio febril, ou sobre efeito das drogas que trouxera escondido da namorada. Até a própria Amanda ficou com um pé atrás, e naquela noite não pôde dormir com tranqüilidade – rendendo-se apenas a cochilos esporádicos, como aconteceu com todos os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte Luís não apareceu para o café da manhã. Em seu quarto, o chinelo estava jogado em um canto, e o casaco não estava pendurado na velha poltrona. Com certeza saíra para fazer uma caminhada matinal, foi o que os amigos pensaram, mas Amanda teve um inesperado pressentimento, tão surpreendente quanto o mal fadado presságio de Luís na noite anterior. Chamou a amiga, Patrícia, e as duas saíram juntas para procurar o jovem estudante de medicina que, há um mês, convidara os amigos para um feriado de carnaval inolvidável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A areia da praia, levemente molhada pelo orvalho de uma noite emblemática, ainda mantinha gravadas as pegadas em direção ao sereno mar que, convidativo, se estendia para quase todos os lados que olhos humanos pudessem afrontar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, antes mesmo de alcançar a primeira faixa espumante de água salgada, as pegadas desapareciam magicamente. “Foi a maré, Amanda”, disse Patrícia, abraçando a amiga, que chorava copiosamente. Luís não sabia nadar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inconsolável, Amanda caminhou cambaleante de volta à velha pensão que ficava sob um platô de calhaus sobrepostos, quando ouviu um toque de acordes, de tão tênue sonoridade, que precisou parar de soluçar para distinguir o sublime ruído com clareza. A música saía de um ponto específico, de um foco que ficava exatamente onde terminavam as pegadas do jovem Luís.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Balada era hipnótica. Mesmo assim, causava um horror imensurável. Cada nota, cada acorde, cada voz que partia daquele lugar unia-se em uma melodia perfeita e, ao mesmo tempo, aziaga. Amanda teve certeza que uma das vozes daquele coral invisível pertencia a Luís, uma inconfundível voz doce que a despertava a cada manhã de domingo, quando seus corpos arranjavam um tempo para se encontrar. Ajoelhou-se submersa em um pranto aterrador, e suplicou a Deus para que fosse levada para perto de seu tão amado homem – para o lugar de onde vinha o cântico que, em algum momento de sua mocidade, ela ouvira, sem saber que esta canção era a mais pura expressão fúnebre refletida por um ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem salvou Amanda deste deprimente torpor foi Patrícia, que apavorada carregou a amiga nos ombros e, depois de um tempo que não se podia medir, chegou com ela na velha pensão. Patrícia também ouvira a Balada macabra, e não podia explicar para si mesma de onde ela viera. Visivelmente abalada, pediu para que os rapazes preparassem as malas, pois eles precisavam fugir dali, imediatamente. É claro que os outros solicitaram uma explicação decente pra todo aquele corre-corre, e Patrícia prometeu explicar tudo no caminho, assim que o coração acalmasse alguns segundos. Mas sabia ela que jamais poderia transmitir o sentimento alarmantemente familiar que a acometeu naquela manhã trágica de um verão há muito esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda, no banco carona do carro que se afastava acelerado da praia, viu ao longe os pescadores que, cautelosos, aproximavam-se do cais, e que não cometiam a imprudência de passar naquele lugar funesto onde um mal se instalara desde o tempo em que a humanidade começou, aos poucos, a perder sua inocência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algum momento de nossas vidas, inevitavelmente, ouvimos o som brando da Balada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-96087911431785377?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/96087911431785377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=96087911431785377&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/96087911431785377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/96087911431785377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/autor-diego-dex-santos-em-algum-momento.html' title='A Balada'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEhDeMIroLI/AAAAAAAAABM/HDdaQZbDyRU/s72-c/Balada.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-7118425882461145434</id><published>2008-06-05T07:34:00.000-07:00</published><updated>2008-06-05T07:37:25.756-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>Aperte "E" Para "Ermos"</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEf5_nlQkvI/AAAAAAAAABE/Ljkm16-4thI/s1600-h/elevador[1].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5208406365429601010" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEf5_nlQkvI/AAAAAAAAABE/Ljkm16-4thI/s320/elevador%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo em que minha vida estava uma completa desordem. Confesso que para mim esta premissa não seria surpreendente, tendo como base grande parte de minha existência neste planeta, mas naquela época em especial a coisa estava realmente bagunçada. Minha mulher e eu estávamos discutindo de forma ferina, e uma dessas brigas culminou em uma separação inesperada. Perdi meu emprego em uma loja de materiais de construção e, em menos de duas semanas desempregado, minhas economias haviam se esgotado por completo, resultando em uma miséria tão drástica que me impossibilitara de comprar até o pãozinho do desjejum. Quanto ao pagamento do aluguel, prefiro nem comentar. Se eu pensei em suicídio? Claro. E se não dei cabo de minha própria vida não foi por instinto de sobrevivência, mas sim pelo velho medo de morrer de forma brutal – medo que todo ser humano tem, mas muitas vezes finge não ter. Atribuo a este meu passado depressivo e atormentado a audácia que tive em lidar com os estranhos eventos ocorridos em uma quinta-feira, onze de março de 1999, na cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha 23 anos. Quando me vi faminto e totalmente abatido pela tristeza e a angústia, próximo a apelar para a mendicância, conheci um senhor de bom coração chamado Joelson, que me ofereceu um emprego como aprendiz de eletricista. O homem, um idoso de olhar brando e voz enfraquecida por oito décadas de existência, fazia todo tipo de serviço o qual seu ofício o habilitava, desde a instalação de redes elétricas a reparos de escadas rolantes, elevadores, etc. Felizmente ele morava bem próximo à minha casa, e assim podia me buscar de carro para a luta de cada dia, levando-se em consideração que eu jamais poderia pagar o valor da passagem dos ônibus intermunicipais que precisaria pegar. E aconteceu que em menos de um ano eu já sabia tudo o que precisava para me tornar um trabalhador independente, mas continuei como aprendiz de Joelson, alegando humildade aos que me cobravam atitude - desculpa um tanto hipócrita admito - mas também porque eu não me sentia apto para um trabalho autônomo de tal responsabilidade. Muitas pessoas com as quais eu mantinha certo relacionamento limitado de amizade me diziam que eu estava sendo covarde, mas Deus sabe que havia um motivo maior. Experimente a humilhação e a descrença durante toda a vida e veja se terá força para encarar os empecilhos da mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que no dia 22 de janeiro daquele ano Joelson veio a falecer, após um derrame violento, e em algumas horas de agonia, a única coisa que se importou em fazer foi me instruiu a seguir com seu negócio próprio, pois o pobre ancião não tinha descendentes. Em menos de um mês exercendo sozinho o trabalho eu já tinha vinte serviços agendados, e fazendo alguns cálculos, conclui que até o mês de maio eu acumularia um bom valor em dinheiro, quiçá uns dez mil reais, me possibilitando a pagar o aluguel que eu estava devendo há meses, ou ainda me concederia a chance de dar entrada em uma casa própria. Devo dizer que não fiquei nem um pouco feliz com a morte de Joelson, claro, muito pelo contrário. O homem era meu tutor... meu pai. Mas o que o velho senhor que me salvou a vida deixou para mim foi nada menos que a salvação e, talvez, a tão sonhada felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um homem simples, isso nunca vai mudar, e acredito que por essa característica minha acabei aceitando uma proposta muito ruim de um velho conhecido de Joelson, o Dr. Afonso Oliveira, membro da administração de um dos mais antigos e famosos prédios da cidade do Rio de Janeiro, o Edifício Odeon. O serviço o qual fui designado era o reparo de um dos elevadores do prédio, que já estava parado há anos, e o dinheiro oferecido para tal era uma mixaria se comparado à grana que eu estava recebendo nas minhas últimas visitas. Mas em nome da amizade entre o Dr. Afonso e Joelson - amizade essa antiga, mesmo antes do meu nascimento - acabei aceitando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde minha infância eu nunca fui fã de cidade grande. Nasci na cidade de Antares, região serrana do estado, e quando meu pai ia agir seus negócios no centro do Rio de Janeiro eu não fazia nenhuma questão de acompanhá-lo. Sempre tive aversão a multidões. Por isso, foi com pouco entusiasmo que peguei o ônibus intermunicipal do turno da manhã na Rodoviária de Antares, no fatídico dia 11 de março deste ano – dia que ficou internacionalmente conhecido como aquele em que houve o maior blecaute registrado no Brasil, e ainda em parte do Paraguai. Lembro que na ocasião noticiou-se que um raio havia atingido a subestação de Bauru, gerando assim o curioso blecaute, mas nenhum especialista em meteorologia confirmou a mínima ameaça de uma tempestade. Acredito que depois do relato a seguir algumas dúvidas serão sanadas, ao menos para os mais crentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trânsito naquela quinta-feira estava matador. Quando cheguei ao Edifício Odeon os relógios da cidade marcavam duas horas da tarde. O Dr. Afonso me recebeu pessoalmente e me mostrou as instalações do local, ferramentas que eu teria a disposição e me apresentou a algumas pessoas importantes, potenciais contratantes de novos – e bons – serviços que poderiam aparecer no futuro. Os funcionários das diversas empresas que laboravam no local eram, em sua maioria, simpáticos e brincalhões. Com exceção de alguns ascensoristas, todas as pessoas com que tive o prazer de conversar foram bem receptivas, inclusive a síndica, Dona Eleanor e sua filha, Valéria. Em detrimento disso, o estafante trabalho naquela tarde quente de final de verão acabou se transformando em uma espécie de diversão camuflada, uma oportunidade de espairecer, bem ao estilo carioca, que não tínhamos como hábito lá na pacata Antares. Mas uma coisa que eu não poderia fazer aquele dia era me render a um bate-papo despreocupado, já que precisava terminar o serviço antes das dez horas da noite – e se ficasse trabalho pendente para o dia seguinte, eu acabaria perdendo a chance de receber um dinheiro mais justo de um outro serviço, agendado há semanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A equipe de técnicos responsáveis pela manutenção das redes elétricas do edifício estava lá pra me dar auxílio. E a companhia daqueles trabalhadores afinal mostrou-se realmente útil, não só pela aceleração da tarefa sacal, como pela socialização e o divertimento que a ocasião proporcionou. De todos os homens presentes, o mais engraçado era Geraldo, que jogava piadinhas a todas as mulheres que passavam pelo hall, e revelava todos os “podres” dos mais respeitados empresários que freqüentavam o edifício, ainda que os boatos fossem, em sua grande maioria, rumores sem fundamento. Foi Geraldo também que me contou histórias esquisitas sobre o prédio, ocorridas desde a época em que ali fora um convento, até ser transformado no mais famoso prédio da Cinelândia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carismático eletricista contou muitas histórias, algumas mais interessantes que outras. Disse que, em meados do século XIX, um grupo de monges do Mosteiro de São Bento, situado a cerca de dois quilômetros dali, promoveram a escavação nos alojamentos inferiores de sua abadia e a construção de uma passagem subterrânea que levava direto ao edifício Odeon – na época, um grande abrigo de freiras – para promover a devassidão com as beatas “menos católicas”. É claro que não acreditei na história, até porque nenhum dos técnicos presentes (ou mesmo os técnicos que trabalharam ali no passado) encontrou sequer um vestígio de que havia uma passagem subterrânea em qualquer ponto do andar térreo do edifício, nem uma cratera sequer. E na verdade, o próprio Geraldo parecia não acreditar na história, pois relatava os fatos como se os estivesse inventando aos poucos, ou acrescentando pormenores à narrativa a cada nova idéia que vinha em sua mente fértil. Contou também que existia uma freira, Maria do Céu, provavelmente a mais devota e carola de todas, que foi obrigada a fazer sexo com três monges sob a ameaça de um florete – arma empunhada pela própria Madre Superiora do convento, Helena Stefanovic. Outros detalhes sórdidos de outras histórias foram acrescentados por Geraldo, mas havia tanta baboseira que prefiro não aludir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E já que estou contando sobre as coisas esquisitas que ouvi naquele lugar, vou citar também o que vi de estranho, pelo menos até o anoitecer daquele dia. O elevador que me prontifiquei a consertar, parado há pelo menos cinco anos, era também o mais estranhos dos quatro elevadores do prédio. Era um elevador muito antigo, daqueles que funcionam manipulando-se uma manivela que ativa determinada engrenagem na fiação no topo do prédio, e acendia uma luzinha fraca no número do andar alcançado, em um painel próprio para isso fixado na lateral do carro. Porém, este era o único elevador do imóvel que, em seu painel, mostrava não só a seqüência de números de 1 a 12, como também um pequeno círculo relevado com a letra “E”, abaixo do número 1. Perguntei a Geraldo o que significava aquilo, já que o prédio não tinha um “Estacionamento”, mas o homem não soube me responder. Ele também não tinha nenhuma historieta que explicasse isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reparar aquele elevador parecia missão impossível. Passaram-se três horas, e nenhuma solução me parecia plausível, senão a de encomendar outro elevador, outro conjunto para cabeamento e um novo circuito de eletricidade. Como eu havia dito anteriormente, a única vantagem que vi em estar ali foi o número de pessoas simpáticas que conheci, e uma garota em especial: a filha da síndica, Valéria, uma moça de vinte anos, cabelos dourados, olhos fabulosamente verdes, e com o corpo mais escultural que eu já havia visto, exceto em programas de televisão. Como era de se esperar, não só eu estava interessado naquela deusa, mas há tempos Geraldo também investia pesado e, devo admitir, já àquela altura do campeonato, que Geraldo estava em larga vantagem. Valéria parecia claramente interessada nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive um curto espaço de tempo livre para conhecer Valéria. Foi na hora do meu almoço. Convidei a menina para comer um sanduíche em uma lanchonete de chineses na Rua Senador Dantas, a menos de cinqüenta metros dali. Não consegui falar nada de interessante para ela, mas ela acabou dominando a conversa e tornando o meu acometimento tímido em uma missão um pouco mais simples. Mas o que ela decidiu falar acabou retornando ao que eu queria evitar: as histórias imundas do que supostamente ocorrera no edifício há mais de um século atrás – aleives já contados por Geraldo, meu rival. E o pior foi quando estas histórias acabaram chegando a um ponto que, para mim, beirava ao inacreditável. Valéria me disse que os funcionários que têm o azar de trabalhar no prédio após as dez horas da noite contam que ouvem sussurros sibilantes vindos do nono andar, e que o único funcionário que uma vez se arriscou a identificar estes gemidos deparou-se com uma imagem tão macabra que o levou ao suicídio, um ano depois. Ninguém jamais soube que imagem foi essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez tenha sido esse momento na conversa que reduziu minhas chances com Valéria. Sempre fui cético ao extremo, e nunca acreditei, nem quando criança, em Papai Noel, discos voadores, fantasmas e mortos que levantam de suas tumbas. Filmes de terror comigo têm um efeito contrário ao que é proposto: sempre dou muitas risadas. Meus pesadelos sempre têm um único tema: falta de dinheiro. Nunca acreditei em Deus e nem freqüentei nenhum tipo igreja, templo ou coligação mística, e essa atitude herdei de meu pai. E como todo bom descrente, desmenti todas as histórias contadas pela moça, e apontei tudo como folclore ou lenda urbana. Mas aprendi tarde que algumas pessoas precisam acreditar no invisível para que suas vidas tenham determinada meta, para que tenham algum assunto insólito no qual embasar suas histórias de vida, ou, no pior dos casos, para explicar a má sorte e os infortúnios decorrentes da própria existência. Eu, por minha vez, não tinha nada de interessante a partilhar neste quesito, e a conversa fatalmente terminou ali, abruptamente. Foi aí que Geraldo, o “contador de histórias”, apareceu, e com força total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as seis e às dez da noite não vi nem Geraldo, nem Valéria. Esbarrei algumas vezes com Dona Eleanor, que parecia ligeiramente irritada, mas não tentei puxar conversa. Diferente da filha, a velha síndica era simpática até um certo ponto, mas seus olhos agora escondiam algum segredo carregado há décadas – algum detalhe que poderia transformá-la de uma senhora respeitável a uma velha execrável. Alguma coisa havia mudado. Também não encontrei os outros técnicos, e muito menos o administrador, Dr. Afonso, que já havia ido pra casa poucas horas depois de minha chegada. Exatamente às dez horas, o portão principal do prédio estava fechado, e muito andares já estavam vazios. Os últimos trabalhadores retardatários tinham que ligar para o celular do porteiro, e solicitar a saída do recinto. Aproveitei uma dessas deixas para sair também e, com muito pesar, decidi deixar o término do trabalho para o dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento em que o porteiro abria o grande portão de ferro para a saída de alguns funcionários, quando eu me preparava também para ir pra casa, Geraldo me alcançou, arfando, mas com um estranho sorriso nos lábios. “Porque vai embora? Você mora lá onde Judas perdeu as botas. Vamos ficar para o serviço noturno” disse ele, mas no fundo eu sabia que os objetivos dele eram outros. Objetivos ligados a sua nova conquista, Valéria – que morava no edifício desde que nasceu – e eu seria a desculpa perfeita para ele passar a noite lá, já que era o técnico mais habilitado e principal responsável pelo serviço complicado com o elevador. Depois de muita insistência por parte de Geraldo – que irritou bastante o porteiro, pois este aguardava minha saída – acabei decidindo ficar para ajudar o novo amigo, apesar do ciúme que me remoia drasticamente. O porteiro, mal humorado, disse que aquela era a minha última chance de sair, depois pegou sua mochila e deixou do prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que, às dez horas e cinco minutos daquele dia, ficamos eu, Geraldo, Dona Eleanor e Valéria, sozinhos, no escuro Edifício Odeon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou nem cinco minutos para Geraldo desaparecer de vista, mais uma vez. Sozinho, me dirigi aos fundos do prédio para continuar com o reparo do elevador. Para isso, ativei a eletricidade no primeiro e no último andar do prédio, e subi pelo outro elevador dos fundos, que estava funcionando normalmente. Cerca de dez segundos depois ouvi um baque muito forte, vindo da parte de cima do prédio, seguido de um estranho gemido agudo que reverberou pra todos os lados, causando um sutil tremor na superfície da cabina mecânica. Foi neste exato momento que o elevador parou, subitamente, e tudo ficou mais escuro que um cativeiro em uma noite sem lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde eu viria a descobrir que aquela queda de energia ocorrera em todo o território nacional, sendo considerado o maior blecaute já registrado no Brasil. Mas naquele momento, para mim, aquela havia sido uma mera falta repentina de luz, ou algum curto circuito gerado por uma falha minha ao manipular os relógios que regulam a energia. Felizmente, não havia nenhum tipo de trava automática de emergência naquele elevador – a maneira mais simples de sair era abrir a porta pantográfica e se projetar para o chão do andar em frente, desnivelado em relação ao piso do ascensor. Foi exatamente isso que fiz e, e acendendo meu isqueiro, aproximei a luz do fogo da parede logo à frente e li a placa, que expunha a informação do andar onde eu estava: 7º Pavimento. Decidi me dirigir à sala da síndica, no nono andar, pela escada lateral não muito longe dali. Acredito que foi a partir deste ponto que a desgraça começava a se desenhar naquele dia infausto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com muita dificuldade, tropeçando e esbarrando em lixeiras, alcancei o nono andar, mas demorei um tempo incalculável para encontrar a sala 909, onde residia Dona Eleanor e sua filha. Antes de bater à porta, porém, identifiquei gemidos de esgotamento vindo de dentro do cômodo. Encostei o ouvido na porta de madeira, e ouvi com alguma clareza as vozes de Valéria e Geraldo. É claro que, ainda que frustrado com o resultado da minha incompetência no que concerne a conquista do mulheril, eu decidi não interromper o momento íntimo dos dois, e me afastei devagar para a janela do corredor, de onde avistei nada mais que um abismo negro como mortalha – um abismo que não consegui coligar com nenhum espaço que havia notado naquele edifício. Definitivamente, aquilo não era o lado de fora do edifício. O lado de fora só podia ser visto de dentro de uma das salas, e não do corredor. Aquela era uma cavidade insondável por parte de olhos humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa que me causou curiosidade naquele momento foi o fato dos gemidos que eu ouvi não cessarem, mesmo quando eu me afastei bastante da sala 909, quase uns dez metros de distância. Pior, os gemidos se tornaram mais fortes, até um momento em que acreditei que alguém estivesse realmente precisando de ajuda naquela sala, ou em outra sala próxima. Nesse ínterim vi um espectro esbranquiçado pela janela, caminhando despreocupadamente, brilhando no negrume do abismo ameaçador o qual eu não conseguia compreender. O vulto era nada mais que a materialização de uma mulher lindíssima, apesar de que suas feições pálidas e o sorriso enigmático esticado no canto do rosto subtraiam meu interesse pela imprevista aparição. Acreditei sinceramente que eu estava alucinando. Cocei os olhos, mas a imagem ainda estava lá, vívida. Horrorizado, deixei meu isqueiro cair no chão. A única luz que me guiava desapareceu. Tremendo, comecei a tatear o chão em busca do objeto, mas este parecia ter desvanecido. Quando me levantei, a brilhante imagem no horizonte havia sumido também. Atordoado, caminhei em vão pelo escuro, tentando achar a sala 909, mas qualquer uma das dezenas de portas do nono andar podia ser. Olhei novamente pela janela, gritei o nome de Dona Eleanor, mas não houve nenhuma resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi então ir para as escadas e subir até o último andar, e, se houvesse um acesso à laje da edificação talvez eu pudesse encontrar alguém em um outro prédio iluminado que pudesse solicitar socorro. Eu não sabia que o blecaute havia sido geral, como já disse. Foi assim que, engatinhando, encontrei a escada e comecei a subir lentamente, andar a andar, até alcançar o andar de número 12.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava completamente cego pela escuridão. E só soube que aquele era o décimo segundo andar pois uma luz intensa aclarava uma parte da parede, em frente à porta de acesso ao elevador, mostrando com clareza a placa informativa: 12º Pavimento. Para minha surpresa e espanto, a cabine do elevador quebrado estava lá, com as portas abertas, e o lustre do mesmo emitia um brilho tão vivo que tive dificuldade em observar o que havia lá dentro. Eu simplesmente não podia dar crédito àquela cena – lembro-me de ter pensado, naquele momento, que eu estava louco, ou preso em algum tipo de pesadelo flagelante. E mesmo confuso como estava, decidi entrar no elevador, com o principal objetivo de analisar como podia um prédio inteiro perder toda sua energia, e ainda assim um elevador quebrado funcionar melhor que todos os elevadores do mundo naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a pensar melhor naquele instante. Observei cada pormenor do elevador e, ainda que não entendesse como a rede elétrica poderia ter voltado a funcionar do nada exclusivamente para a fiação daquele elevador, tive tranqüilidade para notar alguns detalhes que antes não havia reparado. Um deles, por exemplo, foi que cada número de cada andar no painel tinha uma pequena lâmpada que se acendia indicando o andar em que se estava, exceto a estranha letra “E” em alto relevo, que não era uma lâmpada, mas sim um botão. Curioso, pressionei o interruptor, com força. A porta pantográfica do elevador, que não era automática, fechou-se sozinha com um baque violento, e o elevador começou a se movimentar para baixo, isso sem que eu ao menos chegasse perto da manivela. Irresoluto, dei socos na porta, e gritei por ajuda, mas do lado de fora a escuridão só se adensava, mais e mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levou séculos, ou pelo menos foi o que me pareceu, até o elevador brecar violentamente, mas aparentemente sem encostar no chão. Quando me levantei, percebi que do lado de fora havia luz, não tão forte como a do elevador, mas havia. À medida que a porta foi se abrindo lentamente, percebi então que aquele era um andar parecido com qualquer um dos outros, exceto pela luz alaranjada – e não azulada – que saia das lâmpadas, e pelo chão sem calçamento. Imaginei que aquele piso estaria abaixo do andar térreo, sendo assim uma espécie de porão. Caminhei pelo corredor largo até alcançar um buraco enorme na parede, que devia ser um projeto inacabado para a construção de uma janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que vi ali, pra mim é muito difícil de descrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que o cenário que se estendeu a minha frente, se não uma cruel alucinação, deveria ser fruto dos pesadelos mais mórbidos da mais nebulosa das mentes. Infelizmente, minha mente limitada e minha ignorância me permitem apenas associar àquele horizonte a qualidade de um pandemônio infernal. O próprio ar era carmesim, e criaturas estranhas arrastavam-se no chão repleto de barro e lodo. Ao olhar para o céu, pude ver criaturas esguias e aladas, de diferentes talhes, dançando e rodopiando ao som de uma melodia funesta, enquanto uma cachoeira de sangue distribuía sustento e desembocava em açudes onde boiavam animais moribundos. Não fosse eu um sujeito de coração empedernido, incrédulo, não acredito que teria resistido a essa visão horrenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que me chamou a atenção foi a presença da pálida mulher sob o delicado vestido branco de seda, caminhando sobre os asquerosos vermes que se arrastavam aqui e ali. Contudo, desta vez, ele estava me chamando, fazendo delicados movimentos com as mãos, sorrindo para mim com uma afabilidade que tornava a cena, no mínimo, bizarra de se contemplar. Eu jamais teria seguido aquele espectro caso fosse um homem, ou uma mulher qualquer. Mas havia algo naquela mulher - especificamente naquela mulher - que transcendia as leis naturais, algo que a tornava mais bela que qualquer top model do mundo físico, e mais horrenda que qualquer fábula fantasmagórica já imaginada pelo mais demente romancista. Amor e ódio eram transmitidos por seus olhos amendoados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a curiosidade, esperança de um coração amargurado, dissipou o pavor e me impulsionou a obedecer àquela criatura imaterial, que parecia se locomover unicamente com o impulso do vento. Pulei a janela e pisei nas asquerosas formas rastejantes, que não me atacaram, apenas tentaram se afastar. Aos poucos caminhei, e quanto mais me aproximava da mulher, mais ela se afastava, como se seu objetivo fosse me levar a algum lugar que fazia parte do meu destino confrontar. Por fim chegamos a uma casinha de madeira, caindo aos pedaços, onde ela havia penetrado sem precisar abrir a porta.&lt;br /&gt;Entrei, mas ela não estava lá. Procurei-a por todos os cantos, vasculhei cada ponto da pequena casa, mas não encontrei a mulher em lugar nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas paredes, escrivaninha e criado mudo havia muitas fotografias, desenhos e bilhetes velhos. Fiquei surpreso ao ver a foto da mulher que eu havia seguido até à cabana – uma linda fotografia, em preto e branco, mostrando a moça em vestes de freira. No rodapé do porta-retratos havia uma gravação em ouro com seu nome, em alto relevo: Maria do Céu. Na ocasião eu preferi não associar a mulher com a freira do caso contado por Geraldo, há algumas horas antes – mas estas coisas nunca resultam em coincidência. Além do mais, se era para deixar a loucura tomar conta da minha consciência, então eu navegaria no oceano daquele devaneio incomum. Outras fotografias ainda me chamaram a atenção, como a de uma velha mulher, de olhar severo e impudico, ao lado de uma mocinha de certa semelhança, muito provavelmente sua filha. No rodapé estava escrito: Madre Helena Stefanovic e A Pequena Victória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me assustei quando vi a mulher de branco parada ao meu lado, olhando para mim. Era como se ela estivesse lá o tempo inteiro, tímida, esperando o momento em que eu me acostumaria com sua tórrida presença. Seu rosto era de uma beleza indescritível, de uma graça insuperável, mesmo que seu aspecto fantasmagórico gerasse em mim arrepios a cada segundo. Mais ainda me surpreendeu sua voz, encantadora e imaculada, que se projetava em ecos longos, como se estivéssemos em uma gruta gigantesca, e não em uma casinha humilde, no meio de um lugar aberto e vazio, ermo de vida humana. “Agora me conheces” disse-me ela, tocando-me suavemente no ombro “olhe bem para elas, meu menino, e entenderás”. Então ela me apontou a foto com a madre superiora e sua filha. Daí eu compreendi. Não sei explicar como, mas compreendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se aquele era um sonho, era então o sonho mais realista que tive em toda minha vida. Pude sentir o aroma perfumado que do espectro desprendia, conflitando com o odor hediondo presente em cada canto daquela “dimensão”. E, como em uma fantasia criada por algum frenesi onírico, vi passar bem diante dos meus olhos toda a vida daquela pobre freira que estava ao meu lado, cada momento de angústia, cada sofrimento nas mãos de três monges bandoleiros e de uma terrível Madre Superiora, que eu sabia que se chamava Helena. Eleanor. A megera da foto era idêntica à velha síndica do edifício, Eleanor. E a adolescente ao lado dela – eu queria não ser tão óbvio – era a imagem da jovem e esbelta Valéria, com seus longos cabelos loiros e olhos densamente esverdeados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria do Céu então me pegou pela mão, e me levou até um outro quadro. Este era bem grande e mostrava um homem com alguma similaridade com ela, quem sabe um pai ou um irmão mais velho. Mas o que me inquietou foi que este homem, apesar de ser bem mais velho que eu, mostrava os mesmos traços faciais e características físicas minhas, como se fosse um antepassado não muito distante. Seu nome era Wilson Carvalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei naquele momento de uma história que minha mãe me contava quase todo dia, antes de ir dormir. Ela dizia que havia me batizado com o nome de seu amado bisavô, um militar reformado que lutara na Segunda Guerra Mundial – um homem que dedicou o pouco que lhe restara de sua vida a criá-la dignamente. Ele era conhecido como Major Carvalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu nome é Wilson Siqueira de Carvalho. Declaro que no dia 12 de março de 1999 assassinei as seguintes pessoas: Dona Eleanor, Valéria e Geraldo, funcionários do Edifício Odeon, situado no centro da cidade do Rio de Janeiro. Não sei como aconteceu, pois acordei às cinco horas da manhã do dia já citado com uma faca enorme banhada em sangue na mão direita e com o corpo mutilado destas três pessoas bem na minha frente. Decidi me suicidar neste dia, 21 de março de 1999, antes que a polícia me capture, pois as autoridades jamais acreditarão em uma história tão incomensurável como essa. Eu pelo menos não acreditaria. Escrevo então este pequeno relato esperando que o mesmo satisfaça a curiosidade de pessoas que estão apenas cumprindo com seu trabalho de investigar o ocorrido, e para saciar a necessidade de uma explicação – não muito plausível – aos meus familiares da cidade de Antares, no interior do estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Termino dizendo que Maria do Céu está aqui, ao meu lado, aguardando a minha partida definitiva para a terra onde ela reside hoje, Os Ermos. Desta maneira nossa missão se dá por completa – e os tormentos e sussurros que ela bradava no nono andar do antigo edifício da Praça Mahatma Gandhi finalmente cessarão. Contudo, aquele que se atrever a entrar no velho elevador dos fundos e apertar o botão “E” do mesmo, encontrará algo que, para todo ser humano, é indizível, além de cruelmente traumático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aperte “E” para os “Ermos”, no antigo elevador do Edifício Odeon, e terá a mais inefável e tétrica visão de toda a sua vida, jamais concebida pela acanhada mente humana.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-7118425882461145434?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/7118425882461145434/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=7118425882461145434&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/7118425882461145434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/7118425882461145434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/aperte-e-para-ermos.html' title='Aperte &quot;E&quot; Para &quot;Ermos&quot;'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEf5_nlQkvI/AAAAAAAAABE/Ljkm16-4thI/s72-c/elevador%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-4259122785367097853</id><published>2008-06-04T20:44:00.000-07:00</published><updated>2008-06-04T20:48:21.420-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Humor Negro'/><title type='text'>Encontro Macabro</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_lshy_CZekhE/SEdh1FJhajI/AAAAAAAAAAM/s95OFAoBWFA/s1600-h/Alarcao-BurocraciaLowRes.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_lshy_CZekhE/SEdh1FJhajI/AAAAAAAAAAM/s95OFAoBWFA/s320/Alarcao-BurocraciaLowRes.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5208239058620344882" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;Autor: Thiago Abraão&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Bom dia...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Boa tarde...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Ou boa noite tanto faz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Então rapaz o que lhe trouxe aqui?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Sabe que eu não sei ao certo? Enquanto estava aguardando na sala aí fora disseram que o senhor estava me esperando – disse o rapaz de calça jeans, blusa branca, tênis bem parecido com o da marca all star, cabelo curto, uma papelada na mão, e nada mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Ah sim! Me deixa dar uma olhada nessa papelada? Pra verificar sua situação – disse o outro homem na sala, sentado atrás de uma mesa de escritório, aparentava ter uns quarenta anos, muito belo, similar a um galã de cinema, usava um terno preto com gravata vermelha e carregava uma caneta na mão, e nada mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Sim, pode pegar! – disse o rapaz entregando a documentação ao homem a sua frente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Hum... Sim. Você é o Rafael. Tenho seu registros aqui sim, logo irei agilizar seu esquema pra você ser liberado – disse o elegante homem sentado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Pô brigadão cara! Vai organizar minha situação, e logo estarei liberado né?... Alias qual seu nome, mesmo? O senhor não tem crachá – falou Rafael, um pouco aliviado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- É. Desculpa não ter me apresentado, tanta gente me conhece que às vezes me esqueço. Pode me chamar Lucie. Parece que seu caso não é muito complicado, vai dar pra resolver seus problemas. Você está acostumado com burocracia?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Até que não. Nunca fui de procurar repartições publicas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Então se prepara por que serviço burocrático e chato é o que agente mais tem aqui, mas vai valer a pena, pois depois você irá pra onde merece ou fez por merecer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Então tomara que dê certo né, num gosto de esperar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Logo se vê. Veio parar aqui tão novo. Normalmente as pessoas demoram muitos anos pra aparecer por aqui!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- É. Comigo foi cedo, mas necessário, senão ia ser bem pior concorda?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Pra quem tem apenas dezenove anos você já fez muita coisa. Coisas que vão tornar seu relatório complicado, mas vou ver o que faço por você. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Sei como é, já fiz muita merda, e isso prejudica um pouco. Eu já tinha isso em mente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Pois é. Como eu falei, muita coisa mesmo você já fez Rafael. Coisas do tipo: uso de drogas, trafico de drogas, tentativa de assassinato, homicídio culposo, homicídio doloso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Realmente minha situação tá difícil, mas creio que o senhor vai me ajudar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Estou tentando... Parece bem complexo, mas meu escritório é o principal do departamento, então cabem a mim as decisões importantes desse gabinete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Muito bom saber que estou falando com o manda chuva então...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- É... podemos dizer que sim. Agora percebi que os homicídios cometidos por você foram contra seus pais! Aí dificulta ainda mais sua situação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Putz! É sério? Pô, é que meus pais eram muito chatos, mas e aí, o que acontece agora?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Acontece que minha decisão acarretará num destino bem ruim pra você.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Quê isso... fala sério! Num basta os problemas que eu passei antes de chegar aqui ainda vou ter que sofrer mais...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Com certeza, Rafael. Pelo que eu vejo aqui você vai sofrer muito ainda, o que você penou até agora não é nem a metade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Que merda que fiz quando quis resolver meus problemas de qualquer maneira!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Pelo menos você já começou a se arrepender. Isso faz parte de sua punição, mas pode considerar isso aqui cem vezes pior que aquela cadeia que você ficou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Mas tem alguma maneira de sair do lugar pra onde vou?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- impossível. Nenhuma pessoa saiu de lá, infelizmente. Ou felizmente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- E agora?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Pronto. Já está tudo preparado pra você ir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Sério? Então não tem jeito mesmo...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- É rapaz, fim da linha. É só entrar nessa porta aqui ao fundo e entregar esse documento ao porteiro do outro lado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Qual porta?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Essa porta aí ao fundo. Essa onde tem esse número aí, garoto...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Qual delas? Que número?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;- Essa porta que tem um 666 gravado, bem aí ao fundo!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-4259122785367097853?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/4259122785367097853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=4259122785367097853&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/4259122785367097853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/4259122785367097853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/encontro-macabro_04.html' title='Encontro Macabro'/><author><name>Thiago Abraão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13897662831876487695</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_lshy_CZekhE/SEdh1FJhajI/AAAAAAAAAAM/s95OFAoBWFA/s72-c/Alarcao-BurocraciaLowRes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-5914789751859119891</id><published>2008-06-04T10:32:00.002-07:00</published><updated>2008-06-04T10:42:37.863-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Horror'/><title type='text'>A Coleção</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEbSCmu3eLI/AAAAAAAAAA8/OBp5ZMusEFU/s1600-h/CabeÃ§a+do+Cetro.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5208080961299249330" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEbSCmu3eLI/AAAAAAAAAA8/OBp5ZMusEFU/s320/Cabe%C3%A7a%2Bdo%2BCetro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Autor: Diego "Dex" Santos&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;1. O Forasteiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O condomínio Flor D’Ouro não foi sempre um lugar decadente como vemos nos dias de hoje. Antes da detestável boca de fumo e antro para uma vagabundagem multiplicável em que o local se tornou, Flor D’Ouro era um belo conjunto de casas coloniais que despontavam em verdes campos de rosas, adornados por árvores frutíferas de todos os tipos e crianças felizes divertindo-se despreocupadamente no playground limpo e seguro. O paraíso ficava no Alto da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, há menos de uma hora da Tijuca, e recebia visitantes do mundo todo. Aqueles eram dias dourados, que não voltam mais.&lt;br /&gt;Segundo conta a história, este condomínio foi projetado e financiado por um senador, Francisco Guedes, morador do Alto da Boa Vista desde o início do século XX, mas este projeto fazia parte dos planos menos ambiciosos do político desde 1952, quando a maquete foi entregue para a associação de moradores local. Naquela época a idéia era sinceramente despretensiosa, jamais ansiando trazer turistas e faturar o dinheiro que faturou até o fim do século.&lt;br /&gt;Nunca se soube de alguém que tivesse a mínima informação sobre o que aquela extensa área havia sido no passado, senão um pasto ou meramente um terreno baldio mal tratado. Localizado na Estrada da Paz, o futuro condomínio forneceria aos seus moradores, a maioria idosos aposentados, exatamente o que o nome da estrada denota: paz. Em menos de um ano de construção do condomínio, todas as casas já estavam compradas, muito antes do prazo prometido para sua conclusão.&lt;br /&gt;Eram vinte casas no estilo colonial, além de uma pequena capela, quadra de futebol e terraço com churrasqueira. As ruelas entre as casinhas eram protegidas por um telhado que se estendia por todo o condomínio, e seu chão era feito de mármore polido. A garagem, com lugar para trinta carros, tinha todas as ferramentas necessárias para a revisão de um automóvel, e seu uso era gratuito. A uma distância de seis metros dos muros, havia canteiros com rosas e margaridas de todos os tipos. Todas as áreas do conjunto habitacional eram supervisionadas por câmeras em locais estratégicos, e o Seu Saulo era o porteiro do turno da manhã, responsável também pela segurança e manutenção destes equipamentos.&lt;br /&gt;Dizem as pessoas que moram nos arrabaldes do condomínio que o início da decadência do Flor D’Ouro aconteceu na segunda quinzena do mês de Agosto de 1999. Um Corsa preto, ano 1994, estacionou bem no meio da estrada em frente ao conjunto, e do veículo saiu um sujeito de inconcebível aspecto, um homem que seria cômico, se não fosse estranhamente assustador. Naquele dia, a única pessoa que viu o forasteiro andando às pressas na rua foi o velho Tim, que morava em uma casinha tosca bem em frente ao Flor D’Ouro. Todos os habitantes daquela estrada lembram bem das palavras do ancião: “acaba de chegar ao nosso bairro a maior criatura que já vi na minha vida, e o infeliz é tão feio, que o único adjetivo que tenho pra ele é Múmia Ambulante”.&lt;br /&gt;De fato, o velho não estava muito longe da verdade. Quando ouviu a campainha do portão frontal soar, e ligou o monitor conectado à câmera filmadora sobre o poste de ferro ao lado da entrada principal, o porteiro Saulo tomou um tremendo susto – seu coração sacudiu-se nervoso no tórax – e ele teve que tomar uma decisão rápida: jamais havia visto algo assim, mas precisava se comunicar “com aquilo”. A primeira impressão de Saulo era que estava vendo um homem fantasiado para o um baile de Dia das Bruxas. O estrangeiro devia medir uns dois metros de altura, andava sob um sobretudo negro – até aí tudo bem, aquele era o mês mais frio do ano – e seu rosto apresentava bandagens completamente carcomidas, até a altura dos olhos. No diminuto momento entre digerir a imagem grotesca transmitida pelo vídeo e permitir a entrada do homem, Saulo refletiu, por um período prolongado e sufocante. Seu revólver estava no lugar de sempre, na terceira gaveta da escrivaninha de madeira que ficava no canto da parede da guarita, escrivaninha essa que suportava os monitores da central de vídeo e telefones para comunicação com os condôminos.&lt;br /&gt;Dizem os vizinhos que a única opção de Saulo naquela época era liberar a entrada de qualquer pessoa, pelo menos pela ruazinha que ligava o portão de entrada até a portinhola que dava para a guarita, pois o interfone já não funcionava direito há algum tempo. O gigantesco visitante caminhou devagar até chegar à guarita, e só então Saulo pôde realmente reparar o a altura bizarra a qual o homem atingia: a cabeça do elemento ficou alinhada à janelinha de vidro da guarita, e sua voz era tão grave que as bandagens em sua boca não eram suficientes para abafar o ruído gutural que dela saía. “Eu sou o sobrinho do Dr. Silva”, disse o homem. Foi aí que Saulo percebeu que teria problemas.&lt;br /&gt;O Dr. Heleno Silva era um respeitado cirurgião plástico. Comprara um lote no condomínio desde 1984, três anos antes de este ficar pronto. O médico queria criar uma clínica nas proximidades, e almejava erguer uma casa nos fundos do condomínio, segundo suas próprias preferências. E aconteceu que, poucos anos após o médico se mudar para o conjunto, fez uma viagem para o norte do Brasil e nunca mais voltou. A questão dos direitos sobre a casa do homem solitário de tornou uma malfadada polêmica que perdurou mais de dez anos. A maioria dos moradores votou para que a casa fosse doada ao fiel porteiro, Saulo Mota, na época com vinte e um anos de idade. Alguns meses após a partida do Dr. Silva, o porteiro Saulo que morava de favor na casa do irmão em Del Castilho estava morando em uma casa própria e, diga-se de passagem, a casa mais bonita do condomínio.&lt;br /&gt;Durante quase dez anos Saulo não pôde dormir com tranqüilidade. Sempre imaginava o que aconteceria se o Dr. Silva reaparecesse reclamando os direitos sobre seu lar, ou pior, se aparecesse algum parente requisitando os papéis do imóvel. Saulo não poderia ter a ajuda de seu irmão se fosse expulso de lá, pois esse irmão, Paulo, já havia falecido há dois anos. Se uma desgraça como essa acontecesse, o destino de Saulo era a sarjeta, na melhor das hipóteses.&lt;br /&gt;“O Dr. Silva não mora mais aqui”, foi o que disse Saulo, meio que sem pensar. O forasteiro o fitou gravemente. A única coisa que se podia absorver do semblante do estranho homem sem sentir uma pontada de repugnância eram seus olhos azuis, que na realidade era a única coisa que salvava o aspecto macabro do homem enfaixado até o nariz. A parte lisa da cabeça repleta de cicatrizes tinha um feitio alarmante. “Eu sei que ele não mora mais aqui. Vim ficar com a casa”, respondeu o homem, que surgiu tão repentinamente quanto o Dr. Silva desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O Hóspede&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa número 20 do condomínio Flor D’Ouro era uma casa espaçosa. Tinha dois quartos comuns, além de um quarto de hóspedes, sala de jantar, cozinha e dois banheiros, além de uma garagem exclusiva. Uma casa daquelas valeria em torno de cento e oitenta mil reais – com toda a mobília e eletrodomésticos, o valor duplicaria.&lt;br /&gt;Se Saulo não estivesse tão apreensivo naquele momento crítico, talvez a solução que tomaria para aquele problema tivesse sido menos ingênua. Poderia ter ligado para alguns moradores ou até mesmo para um advogado conhecido, e tentado contornar a situação de maneira amigável. Mas para Saulo, nortista simples de infância paupérrima, a resolução mais limpa era explicar a real situação para o estranho e oferecer-lhe o quarto de hóspedes para sua estadia, até que o síndico fosse contatado para resolver os problemas com os papéis do lote. O homem, que disse chamar-se Jessé, aceitou o convite bucólico sem contestação.&lt;br /&gt;Naquele dia Saulo ajudou Jessé a descarregar suas malas. Eram três malas grandes, além de um imenso baú que deveria pesar uns oitenta quilos, contando com sua carga. Dentro da arca devia haver objetos de ferro, devido ao som de choque metálico em seu interior. As bagagens foram depositadas no canto do quarto de hóspedes. Enquanto Jessé descarregava algumas roupas e as colocava na gaveta baixa do guarda-roupa, Saulo tentou obter informações, dissimuladas em um aparente bate-papo.&lt;br /&gt;- Porque o rosto enfaixado, desculpe perguntar...&lt;br /&gt;- É o meu nariz – respondeu Jessé, a mesma voz grave abafada e arrastada – minha mania de espremer espinhas resultou numa tremenda necrose.&lt;br /&gt;- Meu Deus. Mas você está se tratando, não?&lt;br /&gt;- Sem dúvida – disse Jessé, fitando Saulo com aqueles desconexos olhos azuis. – Logo, logo meu pesadelo terminará.&lt;br /&gt;- Então... o senhor é sobrinho do Dr. Silva?&lt;br /&gt;- Sobrinho neto. Ele era tio da minha mãe. A esposa dele me criou, praticamente.&lt;br /&gt;- O doutor era casado?&lt;br /&gt;- Divorciado. Mas chegou a morar com a gente até eu fazer dezenove anos. Desde que eu era moleque meu tio me ensinou alguma coisa de medicina. Eu só não sou cirurgião plástico porque não tenho licença para exercer a profissão.&lt;br /&gt;Afinal, Jessé não parecia ser uma pessoa anormal. Saulo chegou mesmo a se condenar por ter pré-julgado um homem baseado unicamente em sua aparência. Contudo, ainda que tranqüilizado por um instante, havia o iminente problema da legalização do imóvel, e, sob uma perspectiva prática, não era leviano dizer que havia um inimigo morando em sua própria casa. E o que seriam os objetos de ferro que o homem guardava naquele baú?&lt;br /&gt;Em um âmbito geral, Jessé não era tão estranho quando se acostumava com sua presença. Discreto e silencioso – tanto que Saulo quase não notava sua presença na casa – e igualmente inteligente, Jessé passava seu tempo livre lendo artigos de medicina postados em jornais de faculdades federais ou ajudando a reparar problemas elétricos e encanamentos nas instalações do condomínio. Em menos de um mês todos os vizinhos conheciam Jessé, e mais da metade deles criou vínculos de amizade, apesar da aparência marginal do médico. A única pessoa que parecia ter completa aversão pelo novo morador era o velho fofoqueiro Tim, que nem mesmo morava no condomínio. O velho Tim era conhecido como o maior mexeriqueiro local e, no fim das contas, ele não gostava muito de gente de fora mesmo.&lt;br /&gt;No primeiro domingo de setembro Jessé avisou a Saulo que faria uma viagem a São Paulo com o objetivo de se encontrar com um médico cirurgião amigo de seu tio, a fim de negociar uma operação para a reparação de seu nariz deformado por doença. Saulo viu nisso uma oportunidade de ouro para pedir conselhos sobre o destino do imóvel para o síndico João, além de bisbilhotar o quarto de Jessé e vasculhar o que ele guardava no baú, objetivo que se tornara, de agosto para cá, uma terrível obsessão.&lt;br /&gt;A questão é que todas as metas de Saulo foram frustradas. Não conseguira encontrar o síndico em casa, pois este também havia feito uma viagem e não existia uma estimativa concreta para a data de seu retorno. Não conseguira também abrir a misteriosa arca de Jessé, trancada por um cadeado enorme, mesmo com o auxílio de um chaveiro experiente que conhecia lá do norte. Foi mais ou menos nesta época que – dizem os vizinhos – Saulo começara a ficar um pouco neurótico. Dizia para todos os moradores do condomínio que o velho Tim estava com a razão, que Jessé não era flor que se cheirasse, e que seu novo inquilino estava escondendo algum terrível segredo.&lt;br /&gt;A viagem de Jessé durou muito pouco. Certo dia Saulo acordou com o barulho da porta abrindo suavemente, e pôde ouvir as passadas pesadas de Jessé, mais pesadas do que o habitual, atravessando o assoalho. Na escuridão de uma noite sem estrelas e sem lua, Saulo arrastou-se no chão de seu quarto, devagar, girou a maçaneta da porta e a deixou entreaberta – não mais do que quinze centímetros. Com o olho esquerdo contemplou o espectro que adentrava a casa, e mesmo que a mortalha fosse desleal para com a visão, era impossível não perceber que Jessé parecia ter ficado maior. Muito maior. Seus ombros pareciam ter ganhado uns noventa centímetros para os lados, e suas costas pareciam ter adquirido uma corcunda horrenda. O hóspede então entrou em seu quarto, trancou a porta, e nenhum ruído mais foi ouvido. “É coisa da sua imaginação, Saulo. A penumbra pode nos pregar peças”, pensou o porteiro. Mas naquela noite não conseguiu dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. O Lixo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a tranqüilidade de Saulo, Jessé apareceu com seu “tamanho normal” no dia seguinte para tomar café. Aquela terrível visão do porteiro, o espectro gigante que adentrava seu lar, obviamente era fruto de uma ilusão provocada pelas sombras. Seu hóspede, ao contrário do que ele pensava que confrontaria àquela manhã, parecia um homem renovado, com um semblante mais tranqüilo e menos assustador. Afinal, ele havia conseguido restaurar seu nariz com perfeição – bem, na verdade, Jessé tinha um nariz quase perfeito. O que Saulo reparou foi que a nova parte restaurada do rosto de Jessé era branca, muito branca, em conflito com sua pele morena escura, mas isso não era nem de longe uma anomalia execrável, ao contrário, antes isso do que aquelas bandagens horríveis. Observador do jeito que era, Saulo percebeu uma segunda mudança em seu hóspede: os cabelos longos e lisos penteados para trás. Jessé antes tinha apenas uns poucos fios de cabelo grisalhos pendendo da nuca.&lt;br /&gt;“Veio junto com o pacote básico”, respondeu Jessé, descontraído, em resposta ao olhar indagador de seu anfitrião. O homem sentou-se, pegou um pedaço de pão e começou a mastigar em silêncio. Saulo se perguntava por que aquele homem nunca exigia de forma grave seus direitos sobre a casa, e se conformava em viver como hóspede do porteiro havia mais de um mês.&lt;br /&gt;Também àquela noite Saulo teve problemas para dormir, principalmente quando ouviu ruídos estranhos vindos do quarto de Jessé. Como havia feito na noite anterior, Saulo deixou a porta do seu quarto semi-aberta e aguardou qualquer movimentação na sala de estar. Subitamente, um vulto enorme saiu do quarto de hóspedes, e desta vez Saulo pôde ver claramente que a figura carregava um volume enorme nas costas, provavelmente um saco de lixo, e se locomovia com uma velocidade surpreendente para quem passeia na escuridão absoluta. Então Saulo aguardou o retorno de Jessé, pulou a janela do quarto e, tremendo de frio até os ossos, recolheu o saco de lixo deixado pelo homem em frente à varanda da casa, carregando-o para o seu quarto pelo lado de fora.&lt;br /&gt;Ao vasculhar o conteúdo, inicialmente, Saulo concluiu que estava perdendo tempo. Era só lixo. Pacotes de biscoitos, restos de comida e embalagens de produtos diversos compunham o “grosso” do grupo de objetos ali contidos. “A sua obsessão está se transformando em paranóia, Saulo”, disse o porteiro em voz alta a si mesmo. O odor de imundície acabou empestando o recinto, levando o confuso homem a fechar o saco plástico negro e jogá-lo pela janela.&lt;br /&gt;Não! Aquilo não era um cheiro comum de comida estragada ou podre. Não parecia com o cheiro de detritos, os quais em nosso dia-a-dia precisamos nos livrar e renovar no estoque. Saulo saltou pela janela, madrugada a fora, ansiando não deparar o que sua mente insistia em sugerir. Com o saco plástico ligeiramente pesado sobre o ombro direito, o porteiro subiu veloz pela rampa na lateral da casa, que dava para a garagem. Abriu o portão com o mínimo ruído possível e entrou na garagem, acendendo a luz fraca e despejando o conteúdo do saco no chão, ao lado do Corsa preto de Jessé. O coração bombeava a mais de duzentas batidas por minuto. Era quase impossível respirar.&lt;br /&gt;Hoje em dia alguns espíritas e ocultistas que ouviram o burburinho que se espalhou sobre este caso dizem, com veemência, que o que levou Saulo a pesquisar obsessivamente o saco de lixo de Jessé procurando algum indício criminoso não se tratou de uma mera compulsão. Os religiosos afirmam que Saulo era um médium – mais especificamente, um médium olfativo. E chegaram a este resultado por um fator muito simples: o que Saulo encontrou naquele saco plástico negro naquele fatídico dia não seria suficientemente mal cheiroso a ponto de gerar um odor pútrido de morte tão intenso, quanto o descrito pelo próprio porteiro futuramente. O que Saulo deveria ter feito, naquele instante em que viu a coisa repugnante, era reportar o fato imediatamente para a polícia local, e não se render à curiosidade a que se submeteu nos fatos posteriores ao evento.&lt;br /&gt;O que aconteceu foi o seguinte: havia um dedo por entre restos de comida. Um dedo polegar humano. É claro que, no momento em que contemplou horrorizado aquele pedaço de um corpo humano, Saulo tombou para trás, e gritou, mas a voz saiu muda, e cada pêlo de seu corpo – do quadril à nuca – se eriçou em assombro. Aquele dedo com certeza pertencia – ou melhor, pertencera – a mão de seu hóspede, Jessé. O tom de pele era o mesmo. Quando o choque passou, Saulo recolheu os restos com uma pá, inclusive o dedo morto, e despejou no enorme saco de lixo, levando-o para fora, e deixou no mesmo lugar onde antes estivera. Como sabia que não conseguiria mais dormir aquela noite, buscou um maço de cigarros no quarto, saiu novamente pela janela, e tremendo – mais pela visão traumática que pelo frio – foi para o portão do condomínio. Aquela era novamente uma noite sem a luz das estrelas, ou da lua.&lt;br /&gt;Saulo imaginou que talvez fosse uma feliz coincidência o velho Tim estar acordado àquela hora da madrugada, debruçado sobre o muro de tijolos da casinha humilde do outro lado da estrada. O porteiro atravessou a rua, desolada, e ofereceu um cigarro para o velho.&lt;br /&gt;- Fiquei sabendo que seu hóspede voltou há alguns dias. A Múmia.&lt;br /&gt;Saulo riu: - Ele fez uma operação no nariz. Já parou de usar aquelas ataduras horríveis.&lt;br /&gt;- Não vai me dizer que a cara melhorou?&lt;br /&gt;- Jamais.&lt;br /&gt;- Alguns monstros não têm correção, filho – disse o velho, acendendo o cigarro oferecido – Tem pessoas que gostam de manter o aspecto desprezível. Acham que assim obtêm deferência. Lembre-se disso: alguns monstros não têm correção! Tem gente que vive a vida inteira pagando de bonzinho, mas no final não passa de monstro, da laia desse seu hóspede.&lt;br /&gt;- Não, Seu Tim, não acho que seja esse o caso. Acho que o esquisitão lá tem outros planos. Acho que é o contrário do que o senhor falou.&lt;br /&gt;- Está sabendo de alguma coisa, rapaz?&lt;br /&gt;- Olha Tim, eu estou sabendo sim, e se eu não desabafar eu vou acabar explodindo. Mas o senhor não pode contar isso pra ninguém. Absolutamente ninguém. Se eu souber que o senhor contou, eu vou negar tudo...&lt;br /&gt;- Calma, calma. – disse o velho – Eu posso ser fofoqueiro, mas eu sei quando guardar segredo, Saulinho. Pode falar.&lt;br /&gt;Saulo contou toda a história, desde quando o forasteiro chegou até o incidente na garagem. Tim condenou a decisão do porteiro de não relatar o ocorrido à polícia, mas Saulo contornou o puxão de orelha dando a desculpa de que precisava de tempo para descobrir mais coisas sobre seu hóspede que pudesse incriminá-lo, para não agir com injustiça.&lt;br /&gt;Ainda naquela noite, ao ir se deitar, o velho Tim descreveu à sua esposa, Dona Carmem, o que o porteiro do condomínio Flor D’Ouro havia lhe contado. Dona Carmem ficou assustada, mas concordou que a atitude de Saulo em tentar descobrir algo mais “incriminador” era uma ação puramente nobre. “Ele é um jovem bem intencionado”, ela disse. Como sempre “do contra”, o velho Tim discordou, e disse que esta deveria ser uma “manobra” do porteiro, que queria que o forasteiro fosse acusado de diversos crimes, pegasse uns trinta anos de cadeia e desaparecesse pra sempre de sua vida, deixando livre seu lar.&lt;br /&gt;“Não duvido nada que ele tenha vindo aqui me contar um bando de mentiras pra eu servir como testemunha”, disse o velho. “Como ele sabe que eu não gosto daquela Múmia...”&lt;br /&gt;“De boa intenção o inferno tá cheio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. O Jantar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que está fazendo aqui?”, perguntou o hóspede a Saulo, quando o viu dentro de seu quarto.&lt;br /&gt;No último dia de setembro Jessé disse a Saulo que teria um jantar de negócios na Zona Sul da cidade, e que só voltaria pela madrugada. O porteiro aproveitou para fazer uma nova investida: invadiu o quarto de Jessé e começou a procurar algo que nem mesmo ele sabia o que era. Algo incógnito, abjeto, que o forasteiro escondia e que havia de estar ali em algum lugar. A resposta era a arca.&lt;br /&gt;Quando Saulo decidiu, decerto por uma insanidade temporária, que deveria destruir a arca com um machado ou coisa parecida e desvendar de uma vez por todas o conteúdo do grande objeto de madeira, Jessé apareceu. O porteiro estava saindo do quarto, mas no instante seguinte fora bloqueado pelo corpo desproporcional de seu hóspede – que o encarava com gravidade. “Te fiz uma pergunta. O que está fazendo aqui?”&lt;br /&gt;Por um tempo que pareceu eterno, mas que na realidade durou pouco menos de quinze segundos, Saulo não soube o que responder. O olhar ferrenho do estranho sobrinho do Dr. Silva parecia ferir a alma – seus olhos azuis desarmônicos pareciam estranhamente grudentos, subjugadores. “Achei ter ouvido um ruído vindo do seu quarto, e como a porta estava aberta...” respondeu Saulo, em voz baixa. Achou que a voz tinha saído tão baixa, que Jessé não ouvira o que ele disse – pois o homem respondeu: “Não houve jantar. Acho que vou descer na Tijuca para comer uma pizza. Não é o meu jantar ideal, mas... Quer ir?”&lt;br /&gt;Não era uma proposta recusável, pelo menos não neste ínterim, pois Saulo levou em conta o fato de ter sido pego com a boca na botija. Era melhor se misturar ao inimigo, dar-lhe confiança, e não revelar seu verdadeiro intento. O porteiro aceitou o convite, notificou ao porteiro do turno da noite José que sairia e que voltaria em duas horas (e ao pé do ouvido do amigo sussurrou algo como “se eu não voltar em duas horas, chame a polícia”), colocou uma jaqueta jeans e entrou no carro preto. Em menos de vinte minutos estavam na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca.&lt;br /&gt;Mais vinte minutos se passou, e não houve conversa descontraída entre os dois. Ao contrário, os dois homens não tinham nenhuma compatibilidade de interesses. Para Saulo, Jessé o estava medindo. Testando. E aconteceu que, após um período curto de completo silêncio – coberto apenas pelo som de jovens papeando em voz alta do outro lado do salão da pizzaria – Jessé resmungou, em voz baixa: - Cambada de vagabundos. Não sabem a sorte que têm.&lt;br /&gt;- Como? – Saulo perguntou, mas havia entendido a afirmação.&lt;br /&gt;- Estas crianças. Homens e mulheres que há pouco adquiriram pêlos pubianos, acham que são os malditos donos do mundo. Ora, que se fodam!&lt;br /&gt;- Nem preciso perguntar se o senhor tem raiva de adolescentes...&lt;br /&gt;- E quem não tem? Bando de moleques jogados... Na minha época, nós éramos rebeldes sim, mas respeitávamos os mais velhos. Com essa gritaria toda eu não consigo ouvir nem a porra da minha voz. Veja, Saulo, eles têm a beleza como aliada. Todos eles. Eu nunca tive isso. Nunca.&lt;br /&gt;- Bom, eu nunca fui muito vaidoso, então...&lt;br /&gt;- É claro que não – interrompeu Jessé, olhando para Saulo com frieza – você é normal. Belas pessoas são vaidosas, Saulo, enquanto monstros, como eu, são ainda mais vaidosos, por mais que desmintam. Nós, criaturas ignoradas por Deus, passamos nossa infância confrontando um horror que para moleques assim seria insuportável. Mas você é normal, Saulo. Pessoas normais têm a vantagem de desaparecer na multidão, sair com mulheres bonitas com uma pequena ajuda do dinheiro e, com um pouco de carisma, adquirir um bom emprego.&lt;br /&gt;- Entendo. Mas você está fazendo cirurgias reparadoras...&lt;br /&gt;- Sim. Estou. E até o natal, meu amigo, eu vou estar mais bonito que qualquer um desses guris.&lt;br /&gt;- Quantas cirurgias você vai fazer? – perguntou Saulo. O porteiro estava visivelmente perturbado, acreditando que Jessé estava planejando fazer alguma besteira naquela lanchonete, baseado no jeito como o homem fitava o grupo de jovens que riam e se divertiam, com certeza em comemoração ao aniversário de alguém.&lt;br /&gt;- Quantas forem preciso. Está vendo minha orelha? E os dedos tortos da minha mão? Acha que um ser humano pode viver com estas anomalias?&lt;br /&gt;- Não acho que sejam anomalias, acho que...&lt;br /&gt;- Quer trocar de corpo comigo? – Jessé fitou Saulo com acuidade – Quer transferir sua alma para este santuário contaminado pela fealdade e pelo ódio?&lt;br /&gt;- Não... não sei o que responder – o porteiro estava assustado, mas também sentia pena do pobre homem melancólico em sua frente.&lt;br /&gt;- Não responda nada. – Jessé virou-se rapidamente para ver a saída de três jovens que estavam na mesa onde outros jovens festejavam. Comemoravam o aniversário de uma bela moça – Veja, Saulo. Aqueles três estão destruindo seus corpos, suas mentes e suas almas com o álcool. Agora eles vão arrumar alguma merda na rua.&lt;br /&gt;- Pode ser que estejam indo para casa...&lt;br /&gt;- Não, Saulo, nunca estão! Eles nunca vão pra casa. Veja os noticiários. Espancam empregadas. Tocam fogo em mendigos. Estupram adolescentes. Essas párias nunca estão satisfeitas, a alienação removeu o bom senso da cabeça do jovem.&lt;br /&gt;- Bem, desculpe, Seu Jessé, mas acho que o senhor está sendo um tanto dramático...&lt;br /&gt;- Quer ver com seus próprios olhos?&lt;br /&gt;Por algum motivo insólito, Saulo levantou, e começou a seguir Jessé, timidamente. Era quase meia-noite quando os três rapazes que saíram da pizzaria entraram a pé em uma rua escura, esquina com a Rua Haddock Lobo, já no bairro Estácio, coberto pela penumbra. O porteiro e seu hóspede seguiam o grupo em silêncio, escondendo-se atrás de árvores e postes de vez em quando. Os jovens então chegaram até um viaduto, cruzamento com a Rua Paulo de Frontin, e pareciam ter encontrado o que procuravam. Uma menina, não devia ter mais do que treze anos, era o alvo dos três rapazes. Era uma mendiga.&lt;br /&gt;- Observe – disse Jessé, em voz baixa – E tire suas conclusões.&lt;br /&gt;- Não vamos ajudar?&lt;br /&gt;- Não. – concluiu Jessé, segurando Saulo pelo ombro, e continuou: - Não se pode interromper o destino, Saulo. O nome disso é carma.&lt;br /&gt;- Você é maluco, ou o que? Nós estamos aqui. Podemos ajudá-la. Você e eu podemos dar uma surra naqueles garotos.&lt;br /&gt;- Está brincando? Eu sozinho daria uma surra naqueles garotos. Veja a orelha de um deles, Saulo. É perfeita...&lt;br /&gt;- E então? Vamos impedir... – Saulo, que não reparara no que seu hóspede acabara de dizer, já se preparava para avançar, mas Jessé o agarrou pelo pescoço. Forçou violentamente o antebraço no pomo de adão protuberante do porteiro, que começava a ficar vermelho, sufocado. Antes de desmaiar, viu a menina de rua ser currada pelos três jovens, que, após o coito, passaram a espancá-la com toda a violência e brutalidade que uma cena dessas podia exibir, e ouviu apenas uma frase, dita em voz baixa, ao pé de seu ouvido: “Você precisava ver isso. Era o seu destino”.&lt;br /&gt;Depois, escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. O Livro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do primeiro dia de outubro ao dia primeiro de novembro daquele ano não se viu nem se ouviu falar do hóspede de Saulo, Seu Jessé. O homem desaparecera. Por muitos dias os vizinhos, conhecidos e até mesmo o síndico João – que voltara de viagem – procuraram saber sobre o forasteiro que morava na casa do porteiro, mas Saulo sempre respondia que Jessé havia partido em uma viagem, e que dificilmente voltaria.&lt;br /&gt;Eis a verdade, que Saulo contou apenas para o velho Tim, que jurou guardar segredo: no dia que sucedeu o incidente próximo a pizzaria, Saulo acordou em sua cama, assustado e com um hematoma abissal na cabeça. Em sua mesinha de cabeceira havia um bilhete, provavelmente de Jessé, onde se lia apenas: CONTINUE PROCURANDO. É SEU DESTINO. Quase que obedecendo a uma força maior, Saulo pegou um machado na garagem do condomínio, e decidiu arrombar a arca que o estava deixando paranóico há semanas.&lt;br /&gt;A arca, que estava em um canto da parede, ao lado da penteadeira, cuspiu frangalhos de madeira para todos os lados, e, a cada golpe de machado de Saulo, emitia estranhos sons agonizantes, como os guinchos de um rato ao ser moído. Quando terminou, não acreditou no que viu. O homem devia ter levado o que estava dentro do baú, pois o que o porteiro encontrou ali foi apenas um pequeno pedaço de papel, e um livro. Quanto ao conteúdo do papel, parecia uma espécie de poesia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem procura acha, meu avô costumava falar. Em verdes pastos ou em quartos escuros, acostume-se ao revés do insucesso, e insucesso sempre terá.&lt;br /&gt;Mas existe uma resposta, no livro, no ídolo e no altar. E na minha Coleção está a base, onde você poderá começar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saulo sabia que o recado era para ele. De alguma maneira podia sentir isso, em algum lugar de sua consciência. Por mais que aquele livro lhe parecesse aziago e corruptível, sentia necessidade de lê-lo, ao menos as primeiras páginas, para entender tudo aquilo que começara no estranho mês de agosto daquele ano. Quem poderia condená-lo por esta atitude? Ou a curiosidade não é uma característica imutável próprio do ser humano?&lt;br /&gt;Por três dias o estranho livro, sem título na capa – apresentando apenas um díspar símbolo, permaneceu inerte sobre a mesa de cabeceira de Saulo, ainda que, em alguns momentos da madrugada, o porteiro acreditasse seriamente que o volume se mexia por conta própria, e que o “chamava”. O humilde homem, que nem havia concluído o ensino fundamental, embarcava à noite em sonhos bizarros onde lhe era revelado fórmulas alquímicas e equações matemáticas do Mundo Oculto e surgiam em paredes enegrecidas obras primas do macabro, imagens lúgubres sobre um apocalipse negro, onde as hostes infernais sairiam vitoriosas em uma guerra maldita. Ainda nestes sonhos Saulo sempre se via em um culto diabólico, onde um Bispo, imerso em trevas, fazia sacrifícios humanos a um deus, chamado Xolotl, lançando pedaços mutilados de corpos em um fosso ao lado de um altar. Para todos os lados do templo Saulo via ídolos totêmicos, como aqueles confeccionados pelos antigos povos pré-colombianos, representando, em geral, um jaguar.&lt;br /&gt;Saulo acordava, precisamente, às 9:99 da manhã.&lt;br /&gt;Em um determinado dia, na segunda semana de outubro, numa tarde fria de primavera, o porteiro do Flor D’Ouro decidiu, por fim, começar a ler o estranho livro que parecia ter sido dado a ele como um presente. Primeiro Saulo mediu o volume, sentiu a espessura de cada página e viu os curiosos desenhos feitos ali, maioria imagens simbólicas que lembravam, de alguma maneira, manifestações oníricas. O livro era dividido em seis capítulos, cada um com um nome específico, similar a um compêndio universitário, respectivamente: Introdução a Fórmula, O Método do Ancião, O Rito do Jaguar, A Palavra com T, A Esfera e O Que Não Está Escrito no Popol Vuth. E cada capítulo tinha cerca de cem páginas. No total o livro tinha em torno de seiscentas páginas, mas a capa dura, protegida em couro avermelhado, tornava o tomo muito mais volumoso que o necessário. O livro estava escrito em dois idiomas: espanhol, que Saulo não conseguia ler, e um outro idioma, que o porteiro desconhecia completamente.&lt;br /&gt;Saulo colocou o livro em uma mochila e, pedindo novamente para José, o outro porteiro, para cobrir as últimas horas de seu turno, dirigiu-se ao ponto de ônibus na Rua Boa Vista e entrou na condução número 225, com destino à Praça Mauá, no Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Esperava falar com seu amigo de infância, Luís Aquino, que além de professor de quatro idiomas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, também era pesquisador de idiomas antigos. Almejava que o velho amigo ainda morasse no apartamento da Rua Venezuela.&lt;br /&gt;Isso foi num sábado ou em um domingo, as ruas do centro estavam desertas. Todavia Saulo ficou mais tranqüilo ao ouvir a voz de Luís pelo interfone. Sua viagem não havia sido em vão. O velho amigo pediu para Saulo subir, e o recebeu em sua casa. Uma casa simples, por sinal, considerando-se que o dinheiro que Luís recebia por mês era generoso, contando com seus quatro empregos em uma só universidade, além do dinheiro que recebia por serviço de tradução e revisão de livros de escritores nacionais e estrangeiros. Aquela casa não pertencia a um homem bem sucedido, no fim das contas – não só a casa parecia carregar um segredo confuso, como o próprio Luís estava diferente de outrora. Barbudo, careca e com olheiras profundas, Luís deu um único sorriso seco, e pediu para Saulo se sentar.&lt;br /&gt;Luís serviu alguns biscoitos amanteigados e uma xícara de café para sua visita, pensando que aquele não era um dia próprio para se comemorar. Um amigo de infância havia se lembrado dele, havia vindo visitá-lo. Milagres existiam então. Porém, em um diário encontrado no apartamento de Luís após sua morte, dois anos depois, Luís cita: o horror lupino bateu em minha porta, em forma de cordeiro, no fim da segunda semana do mês de outubro. Foi a partir desta nota, entregue à polícia pelo primo de Luís, que Saulo se tornou o principal suspeito de uma série de assassinatos ocorridos entre os anos de 1999 e 2001, pois neste mesmo diário, na mesma página da citação acima, Luís cita sua visita apenas por uma alcunha, “Linho”. Daí em diante a polícia vem fazendo o seu trabalho.&lt;br /&gt;Nesta época, é claro, nem o primeiro daqueles cinqüenta e sete assassinatos havia sido registrado, ou mesmo descoberto. O assassino matara quatro pessoas, e, segundo registro da polícia, o quinto assassinato ocorria simultaneamente à visita de Saulo a Luís, o que serviu como um álibi no futuro, ainda que por pouco tempo. Naquele dia emblemático, Saulo procurara Luís para que este pudesse traduzir um livro curioso, mas nunca imaginara, sequer no âmago de seus pensamentos mais profundos, que Luís já tivera aquele livro em mãos, anos atrás, e que o próprio Luís foi quem fizera a tradução em espanhol, usando de sua própria caligrafia, traduzindo cada linha de cada página, rabiscando notificações para todos os lados.&lt;br /&gt;- Você traduziu este livro?&lt;br /&gt;- Sim – Luís tremia, e suava frio. Seu rosto parecia com a face de um cadáver – Como conseguiu isto?&lt;br /&gt;- Porque traduziu para o espanhol? – perguntou Saulo, atropelando a última frase de Luís.&lt;br /&gt;- Você veio em minha procura, Saulo. Você me deve explicações, antes que eu forneça as minhas. Como conseguiu essa desgraça?&lt;br /&gt;- Um homem, hospedado em minha casa, guarda este livro em um baú...&lt;br /&gt;- Um sujeito alto, careca, usando uma proteção no rosto? Um homem com os olhos mais negros que o próprio céu noturno?&lt;br /&gt;- Sim, eu acho. Na verdade ele tem olhos azuis, e quanto à proteção, ele não usa mais, já que...&lt;br /&gt;- Então ele começou, Saulo. Entende? Ele começou a seguir as instruções do livro. Aquele diabo começou a seguir as instruções doentias desse maldito livro!&lt;br /&gt;- O que tem o livro? Que idioma é este?&lt;br /&gt;- Este é o livro perdido de uma antiga entidade Maia, do qual o nome eu não me recordo, e prefiro não lembrar. Isto está escrito no mais antigo dialeto maia.&lt;br /&gt;- E você traduziu? – duvidou Saulo que, a esta altura, não mais tocava no prato de biscoitos – você é tão bom assim? E porque em espanhol?&lt;br /&gt;Luís riu, nervoso: - Claro que eu não fui o único tradutor. Este homem que você diz estar hospedado em sua casa deve ter gasto um dinheiro forte com esta tradução. Deve ter viajado para o exterior e feito o diabo para ter o livro completo traduzido. Foi ele mesmo que solicitou o livro traduzido para o espanhol, mas não disse o motivo.&lt;br /&gt;- Do que se trata o livro?&lt;br /&gt;- Meu Deus, Saulo... Diga que não quer saber isso... – Luís estava visivelmente abalado, bebendo água a cada frase que dizia – Queime este livro...&lt;br /&gt;- Não posso fazer isso. Eu dependo de provas para incriminar este homem. Eu dependo disso pra não ir morar debaixo da ponte, Luís. Agora me diga, por favor, de que se trata o livro...&lt;br /&gt;Luís bebeu mais um gole d’água, e respirou profundamente. Caminhando e arfando como se fosse um maníaco ou algo parecido, foi até a janela, olhou para a rua, e fechou a persiana. – Quando comecei a traduzir este livro, acreditei que se tratava de algum tipo de brincadeira. Podia ser mais uma maluquice dessa garotada gótica que anda assustando autoridades em dia de domingo, ou podia ser um livro simbólico de uma antiga tradição maia de inestimável valor. Mas não, Saulo. Aquilo era o ápice da maldade já escrita em uma folha de papel. Hoje em dia tenho certeza que esse livro foi escrito pelo próprio Diabo. Esse livro é quase todo composto por fórmulas e instruções. Animais feitos em sacrifício a um deus pagão, folhas venenosas para serem usadas como chá para cura de enfermos vítimas de palavras de maldição, e orações para suplicar favores a pelo menos três entidades do submundo. Até aí tudo bem, os indígenas americanos sempre fizeram estas coisas, eu também pensei nisso, mas à medida que você vai lendo este tomo, página por página, destrinchando cada detalhe do volume, você percebe que isso não foi obra de um ser ignorante e bem intencionado. Você sente isso. Lembro-me que em um trecho do manual mandava-se depositar em um fosso novecentos e noventa e nove corações de crianças, ainda quentes. Novecentos e noventa e nove, Saulo! Que tipo de chacina resultaria para um ritual deste tipo?&lt;br /&gt;- Mas isso não é novidade. Aqueles povos que viviam aqui na América do Sul antes das colonizações faziam coisas que nós nem imaginaríamos...&lt;br /&gt;- Sim, sacrificavam umas cinqüenta crianças. Não que eu ache isso normal. Mas novecentas criancinhas... – Luís parecia mais horrorizado a cada frase que dizia.&lt;br /&gt;- Lembra-se do nome de alguma entidade? Algum espírito ou coisa parecida, citado no livro?&lt;br /&gt;- Lembro, mas não sei pronunciar aquele nome. Xatil? Xoutil...&lt;br /&gt;- Xolotl – respondeu Saulo, atentando à reação do velho amigo.&lt;br /&gt;- Como é que sabe disso? Aquele demônio te disse alguma coisa?&lt;br /&gt;- Não, ele não disse. E eu prefiro não te dizer como eu sei, ou você vai ficar ainda mais assustado. Lembra de algum trecho do livro onde o autor cita uma espécie de apocalipse anticristão? Um fim do mundo onde o mal sai vencedor?&lt;br /&gt;- Meu Deus, Saulo. Como pode saber uma coisa dessas sem ter lido este livro abominável?&lt;br /&gt;- Responda a pergunta.&lt;br /&gt;- Sim. Uma coligação seria a responsável direta por integrar os cavaleiros apocalípticos, chamados aí de “O Círculo Negro do Jaguar”. Mas eu não sei te dizer nada sobre este grupo.&lt;br /&gt;- Certo. No início de nossa conversa você havia dito que o meu hóspede já havia começado a seguir as instruções deste livro. Disse isso depois que eu falei sobre o homem ter olhos azuis, e não negros. O que quis dizer?&lt;br /&gt;- Não... – respondia Luís, quando sentiu uma forte dor no lado direito do peito. Depois caiu no chão, sofrendo um violento enfarte. Saulo ainda tentou arrancar a resposta do amigo, mas o homem havia desmaiado.&lt;br /&gt;Saulo ligou para uma ambulância, e em seguida saiu, sem esperar o socorro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. O Altar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferente da atitude de qualquer pessoa sã perante um mistério como esse, a obsessão do porteiro o levou a uma incontida pretensão de se aprofundar no assunto, deixando de lado o asco para abraçar, com vontade, a curiosidade. E a cada dia em que, em suas pesquisas, em sua procura por autoridades lingüísticas e professores de idiomas e investigações em bibliotecas de todo o estado, Saulo se tornava menos ignorante no assunto, a sua simpatia pelo tema em questão assumia, até mesmo para ele, um objetivo incomum na busca de um domínio que podia trespassar a barreira folclórica que ali havia, dando lugar a uma espécie de demência ainda adormecida.&lt;br /&gt;Não que Saulo já estivesse alienado a este ponto, mas é o que qualquer pessoa normal pensaria, se soubesse o que se passava dentro da casa número 20 do Condomínio Flor D’Ouro, na Rua da Paz. Imerso em seus “estudos”, Saulo já não mais cuidava da portaria da maneira militante como fizera outrora, e também não mais visitava seu velho amigo Tim, tornando sua nova aversão por socialização um motivo para se especular.&lt;br /&gt;O resultado do primeiro mês de estudo do livro foi a obtenção de um conhecimento que, para Saulo, não seria possível, ainda que ficasse vinte anos ou mais na escola. História, geografia, matemática... as mais diversas ciências eram agora claras, mesmo que o homem não compreendesse sequer uma frase inteira em espanhol, e nem mesmo uma palavra no dialeto maia. Quão maravilhoso era aquele livro! E igualmente viciante...&lt;br /&gt;E então aconteceu que, na primeira quinzena de novembro, Saulo acordou após o mesmo pesadelo asqueroso que vinha tendo há um mês, com uma vontade imensa, incontrolável, de vasculhar o quarto onde Jessé estivera – principalmente, o espaço sob a cama. E assim o fez. Correu até o cômodo que ficava do lado oposto de seu quarto, jogou-se no chão e levantou o cobertor do leito. Foi ali que ele encontrou o horrendo altar com o qual sonhava há tantos dias.&lt;br /&gt;O altar havia sido montado sobre uma mesa pequena com rodinhas de rolimã. Sobre o pano negro de cetim – onde havia um desenho tosco representando um olho – haviam velas pretas apagadas, e um crânio de bode sobre uma superfície de barro em forma de prato, chamado alguidar nas religiões oriundas da África. Cobrindo o crânio e o prato, havia uma grande quantidade de pó de todos os tamanhos e cores. Na parte de trás do altar ainda havia um objeto de prata com buracos vazios na superfície – exceto o buraco maior, que guardava uma escultura de cera representando uma cabeça masculina.&lt;br /&gt;Havia um diagrama rude cunhado em um canto da capa do livro, representando exatamente as formas e pormenores do que existia sobre o altar. Saulo lembrou-se de uma página do livro, mais especificamente no capítulo “O Método do Ancião”, onde havia instruções graficamente detalhadas sobre a utilização do altar e, nestas figuras, os buracos no recipiente de prata eram preenchidos com pedaços de corpos humanos – olhos, dedos, orelhas. Saulo começava a compreender a gravidade daquela brutalidade, os intentos macabros naquelas fórmulas religiosas. Mas aquilo não lhe causara, em momento algum, algum sentimento repulsivo.&lt;br /&gt;Maior parte dos doutores da mente, psicólogos e psiquiatras, afirmam que dentro de cada um de nós existe um lado que nós mesmos desconhecemos. Ou seja, todos nós podemos apontar o dedo, e acusar ao próximo de ser invejoso ou ambicioso, quando, em cada um de nós esses defeitos habitam, congelados, latentes. Saulo não era diferente. Do âmago de seu coração, nas profundezas mais íntimas de seus desejos, o humilde porteiro pensara em como aquele altar e aquele livro lhe trariam riqueza, ainda que não fizesse idéia de como “usá-los”. A sensação de nojo, a barbárie do horror ali imbuído, ia dando lugar a uma empáfia desconhecida, uma incógnita certeza de que ali estaria o fim das preocupações para toda a vida. Talvez por causa de um sexto sentido, atribuído à alma de cada ser humano, Saulo concluísse que Jessé não viera aterrorizá-lo, mas sim, salvá-lo.&lt;br /&gt;Estes mesmos especialistas na arte de decifrar a mente humana poderiam concluir que Saulo fez o que fez levado por um sentimento subconsciente de que o ritual descrito no livro o ajudaria. Algo misturado, com a fé que todo brasileiro adquire, desde o nascer, e com algo mais complexo que somente Carl Jung decifraria. E o que Saulo fez foi “ligar” o altar – primeiramente acendendo as velas pretas. Em seguida vasculhou todo o quarto, procurando as “peças” que deveriam ser inseridas no recipiente de prata.&lt;br /&gt;Não foi difícil encontrar, já que agora contava com uma motivação não-natural.&lt;br /&gt;Estava nos fundos do armário, debaixo de roupas pesadas. Era um invólucro cinza de acrílico, com dois furos para a entrada de um cadeado. Porém, estava aberto. Dentro da caixa havia dedos, olhos, narizes e orelhas humanas de todos os tipos. Saulo entendia assim de onde vieram os “ajustes” no corpo de Jessé. Mas ainda não sabia para quê servia o livro e o altar – apesar de que podia, claramente, imaginar. Tratava-se da Coleção citada no velho bilhete deixado por seu hóspede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. O Número&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;999.&lt;br /&gt;O número da desgraça, pichado em cada muro, em cada porta de cada casa do condomínio Flor D’Ouro. O declínio do luxuoso condomínio já começara a se desenvolver na primeira quinzena de dezembro. Só Deus sabe por quê. Mas os mais racionais moradores do local dizem que a culpa foi, puramente, da administração. O porteiro Saulo sumira de uma hora pra outra, o outro porteiro, José, não comparecia mais ao trabalho há dias, e o síndico João fizera uma viagem aparentemente eterna, deixando as responsabilidades do condomínio a ninguém. Esta falta de supervisão culminou em reação de uma vagabundagem que surgira ninguém sabia de onde – garotos e jovens drogados invadiram o lugar, tomaram casas abandonadas e criaram bocas de fumo, não só ali mas nos arredores, infestando a pacata Rua da Paz com promiscuidade e barulho. Apenas uns poucos homens e mulheres com uma resistência mais elevada se submeteram a continuar morando ali, pois a maioria dos condôminos de bem optou em fugir, pra bem longe.&lt;br /&gt;Finalmente os vizinhos aceitaram que a presença de Jessé trouxera ruína para a casa do antigo funcionário da portaria. Saulo estava desaparecido, apesar de que nenhum morador teve coragem suficiente para entrar na casa número 20 e ver se o homem estava lá, mesmo que só o seu cadáver. Nem mesmo a casa tinha o aspecto que antes tivera: o número vinte, dourado, fora substituído por uma placa, em estilo gótico, com um número 999 impresso, e a própria fachada da casa, antes amarela e vermelha, havia sido pintada grosseiramente com cores negras e roxas. Havia pichação por toda a parte, emitindo palavras repulsivas e xingamentos, confrontando a moral do lugar.&lt;br /&gt;E aconteceu que o velho Tim, preocupado com o sumiço de seu vizinho, limpara sua velha garrucha guardada há décadas no armário ancestral do quarto de casal, escondera por sob a camisa, e decidira invadir o condomínio à noite, mesmo contra a vontade da mulher, ainda que estivesse indo contra o que se falava sobre os perigos do lugar, temerariamente. Aquele lugar, criado para idosos e pessoas que buscavam apenas um canto para descansar, sofrera uma mutação, e seus objetivos mudaram de lugar na mesa.&lt;br /&gt;Em frente à casa, um número aziago atestava o que ali acontecia há dias. Tim, claro, recusou-se a acreditar que a alteração no número do lote tivesse sido feita por Saulo – um homem que não era religioso, na acepção da palavra, mas era um sujeito temente a Deus. Para todos os lados, escondidos nas sombras, marginais oriundos de muitas favelas e comunidades pobres da Tijuca e adjacências tornavam o lugar particularmente abominável, além do odor de putrefação que algumas casas exalavam. Apesar do medo, o velho Tim avançou para dentro da casa 20, pelos fundos. Os três algarismos negros estavam marcados em todos os cômodos da casa. Na sala, na cozinha, nos quartos, a palavra de “ordem” era a bagunça. Sinal de que os desocupados já haviam invadido também aquele imóvel.&lt;br /&gt;De um quarto saía, porém, um som baixo. Relaxante, se não fosse tenso – sim, havia uma redundância confusa na mente do velho, e a canção não só atingiu as mais profundas emoções de Tim como o homem tinha certeza que este som, e o cheiro de imundície que o quarto exalava, era o foco principal – o verdadeiro motivo do afastamento das pessoas de bem, e a atração de gente da pior estirpe. Naquele momento, uma voz surgiu, aquela voz da consciência, implorando para que ele se afastasse o mais rápido possível. Mas como um senhor como ele, um curioso inveterado, chegaria em casa sem uma satisfação de sua busca? Como ele diria pra sua esposa que foi buscar uma solução, e voltou sem uma maldita história pra contar?&lt;br /&gt;Ele então empurrou a porta semi-aberta com a mão esquerda, e apontou a velha arma de fogo com a mão direita. Ali estava sua história. Surgiu para ele, como o primeiro ato teatral surge quando se afastam as cortinas, a imagem horrenda da coleção mais desprezível já vista por um homem de bem. Talvez até o pior dos assassinos sentiria seu estômago revirar ante tal barbaridade. Ossos, crânios, seres vivos mutilados... e outros itens atrozes que Tim não teve tempo de contemplar.&lt;br /&gt;Desmaiara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. O Círculo Negro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto onde o Mal construíra seus alicerces, o velho Tim havia sido amarrado em uma cadeira de ferro. Não sabia quanto tempo havia dormido, mas a lua estava perfeitamente centralizada, vista pela janela aberta. Todos os elementos ainda estavam lá, no chão do cômodo, espalhados. Tim vomitou. Levantou a cabeça e, só então, identificou seu inimigo: em um canto sombrio do quarto, uma figura imersa em um manto negro o observava, inerte. Um segundo espectro negro, enorme, surgiu logo em seguida, carregando um cutelo manchado de sangue, escarlate como o inferno deve ser. O pobre idoso, sentindo um nó na garganta, tentou gritar, mas uma estranha dormência nos lábios o impossibilitava. O encapuzado de grande estatura pegou um pequeno espelho em formato oval e o posicionou em frente ao rosto do velho. A vítima, quase se rendendo a um colapso nervoso, viu o reflexo de sua boca costurada – sangue por todo o rosto.&lt;br /&gt;A figura menor aproximou-se e, sem perder tempo, retirou o capuz que lhe encobria o rosto, revelando sua identidade. O tão familiar rosto de Saulo deveria ser algum tipo de brincadeira gerada pela loucura, uma miragem gerada por alguma artimanha diabólica. O fato é que estava lá. Era Saulo – diferente – mas era Saulo.&lt;br /&gt;O homem mais baixo aproximou-se de seu vizinho mais querido, quase encostando sua boca ao pé do ouvido do velho homem. “Alguns monstros não têm correção, lembra?” sussurrou Saulo. Em seguida, fez sinal para o estranho maior, que levantou a lâmina imensa. “Seja rápido. Não quero que ele sofra”, disse Saulo, segundos antes da cabeça de Tim pender para o lado, e rolar no chão.&lt;br /&gt;- E agora, professor? – perguntou Saulo, cobrindo novamente a cabeça.&lt;br /&gt;- Recrutaremos mais pessoas. O trabalho está só começando, Linho.&lt;br /&gt;Naquela noite, os viciados que estavam em seu curto momento de sobriedade puderam ver dois monges em vestes negras afastarem-se para sempre do condomínio que há pouco caíra em desgraça, um espectro alto e um outro mais baixo, como se fossem pai e filho. E o que eles deixaram para trás, na casa número 999, está lá até os dias de hoje, segundo as poucas pessoas que tiveram estômago de continuar vivendo nas imediações e se arriscaram a descobrir esta história que, para as autoridades, não passa de pura especulação de uma gente ignorante.&lt;br /&gt;“Nunca se deu crédito a velhos senis e viciados” disse um delegado de polícia, na ocasião. “E isso não vai mudar agora”. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-5914789751859119891?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/5914789751859119891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=5914789751859119891&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/5914789751859119891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/5914789751859119891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/coleo.html' title='A Coleção'/><author><name>Diego "Dex" Santos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02235264566601123941</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_jZPAMSRjgvc/SF5_xl39caI/AAAAAAAAACg/QWiSoTrVi6o/S220/061508205236.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jZPAMSRjgvc/SEbSCmu3eLI/AAAAAAAAAA8/OBp5ZMusEFU/s72-c/Cabe%C3%A7a%2Bdo%2BCetro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3389511066956564841.post-7503894056459826193</id><published>2008-06-02T17:24:00.000-07:00</published><updated>2008-06-02T17:27:38.361-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Recado Cripta'/><title type='text'>Bem-Vindo</title><content type='html'>Aqui começam os trabalhos de postagem de contos e crônicas dos amigos e colaboradores da Cripta Arcana. Gostaria de lembrar que nosso e-mail (&lt;a href="mailto:cripta.arcana@gmail.com"&gt;cripta.arcana@gmail.com&lt;/a&gt;) está disponível para que você deixe críticas, elogios e sugestões, além de poder enviar seu conto para nós.&lt;br /&gt;Estamos esperando!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3389511066956564841-7503894056459826193?l=cripta-arcana.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/feeds/7503894056459826193/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3389511066956564841&amp;postID=7503894056459826193&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/7503894056459826193'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3389511066956564841/posts/default/7503894056459826193'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cripta-arcana.blogspot.com/2008/06/bem-vindo.html' title='Bem-Vindo'/><author><name>Cripta Arcana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06134054813070200540</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_x4FmljGxYhI/SESArhX92MI/AAAAAAAAABM/migMRZNLfQ0/S220/1774.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
